Na República, Febre Amarela, Tifo e Varíola: a Revolta da Vacina

Autores: Eduardo Cristiano Hass da Silva1 Gabriela Portela Moreira2

1Doutorando em Educação na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), com bolsa CNPq. Mestre, bacharel e licenciado em História na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). É membro pesquisador do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul (IHGRGS – 2019).

2Mestranda em Educação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), licenciada em História na Universidade La Salle. Atua no setor educativo do Centro Histórico Cultural Santa Casa – Porto Alegre. 

O presente texto faz parte da coletânea “Sete Males”: Histórias das Doenças, Epidemias e Pandemias no Brasil, organizada por Eduardo Cristiano Hass da Silva, vinculada à Rede Análise COVID – 19.

No início da República, a saúde passava a ser compreendida como uma prioridade da população brasileira, tornando-se um tema frequentemente mencionado na agenda intelectual e política do país, com a criação de órgãos especializados como diretorias de higiene (regulamentação dos serviços sanitários nas cidades) e institutos soroterápicos (produção de soros e vacinas para tratamento e prevenção de doenças). Os registros de viajantes, jornalistas, literatos, médicos e cientistas sociais atentavam para a incidência de moléstias tropicais que assolavam o país, dentre elas, a Febre Amarela, o Tifo e a Varíola.

No Rio de Janeiro, a má informação e a adoção de medidas sanitárias autoritárias estiveram dentre as causas de uma revolta popular que estourou em 1904. De forma geral, a população pobre dos arredores da capital reagiu à vacinação obrigatória contra a Varíola, imposta por uma operação liderada pelo médico sanitarista Oswaldo Cruz. A vacinação fazia parte de uma campanha de higienização e demolição de cortiços, composta ainda por esquadrões de mata-mosquitos. Convém mencionar que a truculência da brigada sanitária aliada à falta de informação a respeito das vacinas e seus efeitos colaterais, bem como o discurso “antivacina” disseminado por médicos que se posicionavam contra a utilização desse método preventivo, instigavam na população sentimentos de resistência quanto a vacinação.

O conflito estourou, levando à quebra de meios de transporte (bondes), depredação de edifícios e ataques à agentes higienistas. A reação do governo foi violenta: decretou estado de sítio, suspendeu direitos constitucionais, prendeu líderes do movimento e os deportou para o atual estado do Acre. O saldo deste episódio é ambivalente, pois, embora tenha-se erradicado a varíola da cidade do Rio de Janeiro, o número de feridos chegou a 110 e, o de mortos, a 30.

Em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, desde meados do século XIX é possível mapear ações de tratamento da doença. Desde a década de 1840 o Presidente da Província já registrava suas preocupações (Relatório da Província, 1842), quanto a efetividade da vacina para a prevenção da varíola, também conhecida como “bexigas”. Na Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, em relatório anual elaborado pela administração da instituição, consta a criação de um “lazarêto de variolosos” em 1874, ou seja, um local de isolamento para os pacientes que tivessem contraído a doença. Com alta letalidade, a doença ocasionou a morte de 51 pacientes, de um total de 93 enfermos.

Desde fins do século XVIII existe vacina para prevenção da varíola. Desenvolvida por um médico e naturalista inglês, Edward Jenner. Ao longo de séculos os benefícios advindos da vacinação geraram opiniões controversas entre profissionais da área da saúde. Ainda hoje, em pleno século XXI é perceptível ação de grupos que se posicionam contra o método preventivo de algumas doenças através da vacina, bem como de grupo de anseiam por tratamentos e vacinas de novas doenças.

Referências

BYNUM, William F. História da Medicina. Porto Alegre L&PM, 2011. 

COSTA, Ediná Alvez; ROZENFELD, Suely. Constituição da Vigilância Sanitária no Brasil. In. ROZENFELD, Suely (org.). Fundamentos da Vigilância Sanitária. Rio de Janeiro. Editora FIOCRUZ, 2000, p.15-40. 

SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: Uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

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