Voltar ou não voltar para as aulas?

Autor: Fernando Kokubun (Instagram: @fernando.kokubun) | Revisoras: Mellanie F Dutra (Twitter: @mellziland) e Cristal Villalba (Twitter: @Winter_Madness_)

O presente texto faz parte da coletânea “COVID-19 e o novo normal”: coletânea de artigos sobre o retorno do ensino básico, superior e pós graduação por Luciana Santana, Fernando Kokubun e colaboradores

A pandemia da COVID-19, trouxe além do desafio de combater a doença, outros grandes desafios para a sociedade. Hoje sabemos que na falta de remédios, terapias ou vacinas, a possibilidade segura é o isolamento, distanciamento social, testes massivos e contínuos e um forte planejamento para controlar a transmissão do vírus e reduzir as suas consequências na população.Mas uma questão importante é: Como e quando sair do isolamento? Qual o momento seguro e adequado? O ideal seria esperar a produção de vacinas e remédios eficazes para combater a Sars-CoV-2, antes de atingir o grau de letalidade que observamos atualmente. Mas os indícios de que este momento pode estar perto, ainda são muito tênues, apesar dos esforços da comunidade científica em buscar soluções que possam reduzir ou eliminar a necessidade das medidas citadas anteriormente, que apesar de serem drásticas, são as únicas que tem demonstrado efetividade no controle da propagação da COVID-19.

Neste cenário, têm surgido propostas de relaxar o isolamento (ver no caso de escolas em alguns países europeus as reportagens em [5] e de forma mais geral, de como sair da quarentena a reportagem em [9]) permitindo o funcionamento de algumas atividades além das chamadas atividades VERDADEIRAMENTE essenciais. Dentro deste retorno para uma “normalidade”, ou a criação do nosso novo normal, uma das discussões que tem surgido é a do retorno das aulas, devido às implicações sociais com a manutenção das escolas fechadas, e com considerações de que a abertura ou não das escolas, deve passar por uma decisão política e não apenas em questões de transmissibilidade do SARS-CoV-2 [1, 5] . As alegações são de que tomadas as devidas precauções, as escolas poderiam abrir – principalmente para crianças – sem causar problemas no controle da pandemia.

Alguns países já reabriram suas escolas, outros países tem planejado o retorno para as aulas ainda no mês de junho, e outros países ainda não anunciaram possíveis datas para a reabertura das escolas [1,5].

As motivações para justificar uma possível reabertura das escolas são diversas, incluindo preocupações com o educação dos jovens até questões ligadas à economia (impactos na PIB do país), passando por questões sociais (em especial a questão da alimentação fornecida nas escolas, que muitas vezes é a única refeição balanceada que os alunos têm acesso) e outros tópicos. Mas estas preocupações acima, não são exclusivas para o caso das escolas (exceto talvez a questão com a educação que está mais relacionado com as escolas) mas de toda sociedade [5].

Mas uma justificativa que tem sido utilizada para a abertura das escolas, é a de que as crianças em geral são assintomáticas, ou com efeitos muitos leves da COVID-19 e com baixo índice de transmissibilidade entre elas (em [7,8] existe uma rápida discussão sobre o tema). No entanto, existem críticas que devem ser consideradas ao considerar os dados de baixa infecção e transmissão na faixa de adolescentes e crianças. Uma crítica importante, é a de que a taxa seria menor, porque as crianças foram menos expostas do que os adultos, pois muitos países fecharam as escolas no início da pandemia, o que reduziu de fato a exposição das crianças e adolescentes ao coronavírus, o que poderia explicar parte da baixa transmissão e infecção nessa faixa etária. Além disso, os testes realizados para detectar o SARS-CoV-2 em crianças e adolescente, tem sido muito menor que os testes realizados em outras faixas etárias [2], não sendo portanto adequadas como medida do grau de transmissibilidade do coronavírus responsável para COVID-19. Outra questão importante, é sobre a possibilidade das crianças transmitirem o coronávirus para outros adultos, em especial para os avós ou avôs que em muitas famílias , moram juntos dos netos, dividindo a mesma casa, em especial para a população de renda mais baixa.

Um artigo recentemente publicado [4], realizou uma revisão na literatura sobre o efeito do fechamento das escolas na contenção de algumas epidemias , incluindo a COVID-19. Os autores alegam que para casos como a influenza, o fechamento das escolas demonstrou ser efetivo, mas que no caso da COVID-19, a efetividade para a contenção da pandemia é menor, sendo necessário outras medidas. E discute a necessidade de considerar o fechamento ou não das escolas, dentro de um contexto maior e que outros fatores devem ser considerados na decisão final de abrir ou não as escolas (a decisão final seria muito mais política do que técnica).

Na Inglaterra, com fortes medidas preventivas (redução do número de alunos por turma, distanciamento social na sala de aula e outros fatores implementadas em alguns países [5] a previsão é da reabertura das escolas em junho. Mas um grupo de pesquisadores ingleses, alertam do risco prematuro desta reabertura, e que se a reabertura for atrasada por duas semanas, o risco de transmissão entre crianças pode diminuir pela metade, mas que o mais adequado e seguro, seria a reabertura apenas em setembro, pois para uma reabertura segura seriam necessários, protocolos bem definidos de testes, de rastreamento de casos e isolamento se necessários Além de equipamentos adequados de proteção individual nas escolas, o que de acordo com os pesquisadores ingleses, não estariam disponíveis em junho [3].

Na prática, quais os resultados que já existem para os países que realizaram a abertura das escolas, e como foram realizadas estas aberturas? Países como a Dinamarca, reabriram as escolas (inicialmente para as crianças pequenas), reduzindo em pelo menos pela metade o número de alunos por turno, mantendo as crianças isoladas em suas próprias turmas (de no máximo doze crianças), com intervalos frequentes para a higienização (principalmente lavagem das mãos) e a Alemanha abriu inicialmente para os adolescentes, mantendo turmas reduzidas, com distanciamento social dentro das salas de aulas e outros procedimentos de segurança.

Estas medidas seriam suficientemente seguras para justificar a aberturas das escolas? E poderiam ser justificativas para que outros países reabram as escolas? No momento é muito difícil ter uma resposta precisa, pois com certeza as condições locais , a elaboração e execução de um planejamento estratégico são fundamentais para a reabertura, o que inclui testes frequentes nos alunos e a manutenção do distanciamento social dentro da escola e no deslocamento para a escola. Um exemplo de que a reabertura das escolas devem ser feitas com toda cautela, é o fechamento de 70 escolas na França, que apresentaram casos da COVID-19, apenas uma semana após a reabertura. Este acontecimento serve de um forte sinal de alerta dos riscos existentes [6] no processo de reabertura.

Para finalizar, a questão de que crianças estariam imunes ou que apresentariam sintomas leve da COVID-19, precisa ser vista ainda com cautela [7]. Infelizmente uma situação importante que poderia ajudar a analisar o efeito da reabertura das escolas, não foi aproveitada na Suécia, um país que não adotou de imediato medidas de isolamento e distanciamento social. Existem registros , que ocorreram surtos de covid-19 associados a algumas escolas da Suécia [8], mas a falta de dados precisos não nos permite tirar conclusões mais adequadas sobre os reais efeitos das escolas na propagação da COVID-19.

Sem dados mais precisos, a cautela é a mais recomendada neste caso. Uma reabertura geral, sem um controle e planejamento que incluem desde o deslocamento até a realização de testes nos estudantes e funcionários das escolas , e adequação do ambiente para receber poucos alunos por turno é um risco muito alto. Em particular no Brasil, as realidades das maiorias das escolas não permite manter turmas reduzidas, ter lavatórios para permitir higienização constante , equipamentos de proteção individual e principalmente testes frequentes para os membros da comunidade escolar (alunos, professores e funcionários).


Referências

[1] Coronavirus: What does evidence say about schools reopening? C. Wilson, New Scientist, 29 de abril 2020.
https://www.newscientist.com/article/2241771-coronavirus-what-does-evidence-say-about-schools-reopening/#ixzz6NYCRKTYX

[2] How do children spread the coronavirus? The science still isn’t clear. S. Mallapaty, Nature News, 07/05/2020. https://www.nature.com/articles/d41586-020-01354-0

[3] Independent scientists urge UK government to delay reopening schools. New Scientist, The Daily Newsletter, 20 de maio de 2020.
https://www.newscientist.com/article/2237475-independent-scientists-urge-uk-government-to-delay-reopening-schools/

[4] School closure and management practices during coronavirus
outbreaks including COVID-19: a rapid systematic review. R. M Viner et all. Lancet Child Adolesc Health, 2020; 4: 397–404.
https://reader.elsevier.com/reader/sd/pii/S235246422030095X?token=137ADC9F723A0A4010C74BA43D67902BD80A04832896323AE8B81134AF75376B2F3AE09637D0ED4D5B553FF51876DB41

[5] How reopened schools in Denmark keep children safely apart. S. Coughlan, BBC News, 12/05/2020. https://www.bbc.com/news/education-52550470

[6] Coronavirus: France sees 70 cases linked to schools days after reopening, Associated Press Reporters, Independent, 18/05/2020 .
https://www.independent.co.uk/news/world/europe/coronavirus-france-school-cases-reopen-lockdown-a9520386.html ;

França fecha 70 escolas uma semana após a volta as aulas devido a novos casos de
COVID-19, portal G1, 19/05/2020;
https://g1.globo.com/educacao/noticia/2020/05/19/franca-fecha-70-escolas-uma-semana-apos-a-volta-as-aulas-devido-a-novos-casos-de-covid-19.ghtml

[7] Doctors race to understand rare inflammatory condition associated with coronavirus in young people, J. Couzin-Frankel, Science News, May. 21, 2020.
https://www.sciencemag.org/news/2020/05/doctors-race-understand-rare-inflammatory-condition-associated-coronavirus-young-people

[8] How Sweden wasted a ‘rare opportunity’ to study coronavirus in schools. G. Vogel, Science News , May. 22, 2020 .
https://www.sciencemag.org/news/2020/05/how-sweden-wasted-rare-opportunity-study-coronavirus-schools

[9] How can countries know when it’s safe to ease coronavirus lockdowns? J. Hamzelou, New Scientist, 20 maio de 2020.
https://www.newscientist.com/article/2244056-how-can-countries-know-when-its-safe-to-ease-coronavirus-lockdowns/

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