As pandemias deprimem a economia, as intervenções de saúde pública não: evidências da gripe de 1918

Título Original: Pandemics Depress the Economy, Public Health Interventions Do Not: Evidence from the 1918 Flu.

Autores: Sergio Correia (Board of Governors of the Federal Reserve System), Stephan Luck (Federal Reserve Bank of New York), Emil Verner (Massachusetts Institute of Technology (MIT) – Sloan School of Management)

Título em Português: As pandemias deprimem a economia, as intervenções de saúde pública não: evidências da gripe de 1918.

Link para o artigo: https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=3561560

Tradução: Ananias Queiroga de Oliveira Filho (@ananias_1979) | Revisão do texto traduzido: Mellanie F. Dutra (@mellziland) e Paula Vanacor (@paulavanacor)

“Resumo: Quais são as consequências econômicas de uma pandemia de influenza? E, dada a pandemia, quais são os custos e benefícios econômicos das intervenções não farmacêuticas (INF)? Usando variação geográfica na mortalidade durante a Pandemia de Gripe de 1918 nos EUA, descobrimos que áreas mais expostas experimentam um declínio acentuado e persistente na atividade econômica. As estimativas sugerem que a pandemia reduziu a produção industrial em 18%. A desaceleração é causada pelos canais do lado da oferta e da demanda. Além disso, com base nas descobertas da literatura epidemiológica que estabelecem que as intervenções não farmacêuticas (INFs) diminuem a mortalidade por influenza, usamos variação no tempo e na intensidade das INFs nas cidades dos EUA para estudar seus efeitos econômicos. Descobrimos que as cidades que intervieram mais cedo e de forma mais agressiva não apresentaram pior desempenho, mas sim retomaram o crescimento mais rapidamente no momento pós-pandemia. Assim, nossos resultados indicam que pôde-se observar que as INFs não apenas reduzem a mortalidade; elas  também mitigam as consequências econômicas adversas de uma pandemia.

O surto da pandemia de COVID-19 provocou perguntas urgentes sobre o impacto das pandemias e as respostas de saúde pública associadas à economia real. Os formuladores de políticas estão em território desconhecido, com poucas orientações sobre quais serão as consequências econômicas esperadas e como a crise deve ser gerenciada. Neste artigo, abordamos dois conjuntos de perguntas. Primeiro, quais são os reais efeitos econômicos de uma pandemia? Os efeitos econômicos são temporários ou persistentes? Segundo, como a resposta da saúde pública local afeta a gravidade econômica da pandemia? As intervenções não farmacêuticas (INF), como o distanciamento social, têm custos econômicos ou políticas que retardam a propagação da pandemia também reduzem sua severidade econômica?

Nossa análise gera duas ideias principais. Primeiro, descobrimos que as áreas mais severamente afetadas pela pandemia de gripe de 1918 veem um declínio acentuado e persistente na atividade econômica real. Segundo, descobrimos que  as INFs iniciais e  extensas não têm efeito adverso nos resultados econômicos locais. Pelo contrário, as cidades que intervieram mais cedo e mais agressivamente experimentaram um aumento relativo da atividade econômica real após a pandemia. No total, nossas descobertas sugerem que as pandemias podem ter custos econômicos substanciais e  as INFs podem ter méritos econômicos, além de reduzir a mortalidade.

Nossas duas principais conclusões estão resumidas na Figura 1, que mostra a correlação no nível da cidade entre a mortalidade pela gripe de 1918 e o crescimento do emprego na indústria nos anos censitários de 1914 a 1919. Como a figura revela, uma maior mortalidade durante a gripe de 1918 está associada a um menor crescimento econômico. A figura divide ainda as cidades naquelas com as INFs em vigor por um período mais longo (pontos verdes) e mais curto (pontos vermelhos). As cidades que implementaram INFs por mais tempo tendem a se agrupar na região superior esquerda (baixa mortalidade, alto crescimento), enquanto as cidades com INFs mais curtas estão agrupadas na região inferior direita (alta mortalidade, baixo crescimento). Isso sugere que as INFs desempenham um papel na atenuação da mortalidade, mas sem reduzir a atividade econômica. As cidades com INFs mais longas crescem mais rápido no médio prazo.

Finalmente, ao interpretar nossas descobertas, há várias advertências importantes a serem lembradas. Primeiro, nossa análise é limitada a dados de 30 estados e de 43 a 66 cidades. Segundo, os dados sobre a atividade de manufatura não estão disponíveis em todos os anos; portanto, não podemos examinar cuidadosamente as pré-tendências entre 1914 e 1919 para os resultados da atividade de manufatura. Terceiro, o ambiente econômico no final de 1918 era incomum devido ao final da Primeira Guerra Mundial. Quarto, embora haja importantes lições econômicas da gripe de 1918 para a pandemia de COVID-19 de hoje, enfatizamos os limites da validade externa. As estimativas sugerem que a gripe de 1918 foi mais mortal que a COVID-19, especialmente para trabalhadores em idade mais produtiva, o que também sugere impactos econômicos mais severos da gripe de 1918. A natureza complexa das cadeias de suprimentos globais modernas, o maior papel dos serviços e as melhorias na tecnologia de comunicação são mecanismos que não podemos capturar em nossa análise, mas esses são fatores importantes para compreensão dos efeitos macroeconômicos da COVID-19.”

Análise: Os resultados encontrados são claros e assertivos em dois pontos centrais: 1- A crise econômica é causada pela pandemia e não pelo isolamento, logo, o foco deve ser em suprimir e mitigar o vírus. Essa é a mesma conclusão da Professora Laura Carvalho em artigo recente [1] e Chen e colaboradores [2]; 2- Quanto mais rápido e rígido for o isolamento social, mais célere e vigorosa será a retomada da economia, ou seja, salvar vidas deve ser o foco dos governo e da economia, como apontam Adam Tooze [3] e Greenstone e Nigam [4].

Referências:

[1]- https://www.nexojornal.com.br/colunistas/2020/Como-combater-a-recess%C3%A3o-causada-pela-pandemia 

[2]- https://voxeu.org/article/economic-impact-covid-19-europe-and-us 

[3]- https://www.theguardian.com/commentisfree/2020/mar/20/coronavirus-myth-economy-uk-business-life-death 

[4]- https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=3561244

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

Create your website with WordPress.com
Get started
%d bloggers like this: