O ensino superior, o enfrentamento da pandemia de covid-19 e dilemas sobre o retorno das atividades.

Autores: Luciana Santana @lucfsantana1812 e Eduardo Cristiano Hass da Silva

Revisão: Lilith Schneider Bizarro Twitter @BizarroLilith e Paula Vanacor Twitter: @paulavanacor1

A pandemia de COVID-19 parou o mundo e não foi diferente no Brasil. Os impactos sociais, econômicos e políticos vêm sendo sentidos por toda a sociedade. A educação, em seus diferentes níveis, está dentre as esferas que têm sido impactadas diretamente. Neste contexto, as novas formas de organização dos sistemas educativos não afetam apenas a educação básica, mas também o Ensino Superior brasileiro. 

De acordo com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) o isolamento social é a principal medida para minimizar a propagação da COVID-19. Por este motivo, desde que a pandemia foi declarada pela OMS, várias Instituições de Ensino e Pesquisa suspenderam seus calendários acadêmicos. 

No âmbito do governo federal, a primeira decisão do Ministério da Educação (MEC) sobre a suspensão das aulas presenciais e autorização da reposição por aulas  através de plataformas digitais ocorreu no dia 17 de março (Portaria MEC 17/03/2020). Devido ao agravamento da situação da pandemia no país, a medida já sofreu duas prorrogações, uma portaria foi expedida no dia 16 de abril (Portaria 16/04/2020) e a mais recente no dia 15 de maio com validade até o dia 14 de junho (Portaria 14/06/2020). Estima-se que aproximadamente 1 milhão de alunos de universidades federais não têm aula desde o mês de março.

Diante deste cenário, dentre as discussões relacionadas às universidades, pergunta-se: “quando e como voltar às aulas?”. No entanto, antes de tentar responder a esta questão, é importante refletirmos sobre qual o papel das universidades no enfrentamento da pandemia. 

Nos últimos anos temos observado o aumento de inúmeros ataques e tentativas de privatização das instituições públicas de ensino superior, que paradoxalmente são aquelas que também estão na linha de frente do combate ao coronavírus. 

Apesar de pouco conhecidas por parte considerável da sociedade, as atribuições de um professor de uma universidade pública ultrapassam as quatro paredes de uma sala de aula. O ensino na educação superior engloba também a produção de conhecimento por meio da pesquisa, que pode ser básica ou aplicada, ou por meio da extensão, que é a aplicação direta do conhecimento produzido na universidade junto à sociedade. Nessa direção, a articulação entre a pesquisa e a extensão tem demonstrado e legitimado a função social da universidade. São identificadas ações interdisciplinares envolvendo pesquisadores da saúde, engenharias, humanidades, sociais aplicadas, entre as tantas outras áreas de produção do conhecimento. 

Isso significa que, apesar da suspensão das aulas presenciais, as universidades públicas não estão paradas em meio à pandemia, pelo contrário, mais do que nunca a universidade tornou-se central no enfrentamento da pandemia de COVID-19. 

De acordo com levantamento da Associação Nacional dos Dirigentes de Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) as universidades públicas e os hospitais universitários estão conduzindo mais de 823 pesquisas relacionadas ao coronavírus (Santos, 2020). Dentre essas pesquisas, muitas dedicam-se a pesquisar sobre vacinas para a doença e medicamentos. 

Além disso, os hospitais universitários têm disponibilizado leitos e profissionais na área da saúde, além de que várias frentes formadas por pesquisadores e técnicos têm se dedicado à produção de equipamentos individuais de proteção (EPIs), produção de respiradores, protetores faciais, máscaras de pano, aventais, capuzes, produção de álcool gel e álcool líquido, realização de teste para a COVID-19, dentre outros. A universidade também tem se dedicado a contribuir com orientações e sensibilizações da sociedade quanto a medidas adequadas para o enfrentamento da pandemia com embasamento científicos e técnicos. 

Tais medidas reforçam a função social das universidades públicas e a importância do trabalho dos professores e pesquisadores destas instituições (Redação RBA, 2020). 

E as aulas? Quando e de que maneira vão retornar? 

Apesar da autorização para o uso de plataformas digitais para mediação do ensino na educação superior pelo MEC, apenas 6 das 69 universidades federais do país adotaram o ensino na modalidade a distância em cursos de graduação durante a paralisação (PAIXÃO, 2020). 

A chamada do G1 nos convida a pensar que a grande maioria das universidades federais brasileiras (63, de 69) não aderiram ao ensino remoto emergencial após a paralisação causada pela COVID-19. O que levaria estas instituições a manterem as aulas suspensas? Embora o ensino remoto vise manter as aulas, é importante destacarmos que alguns obstáculos são encontrados.

Dentre estes obstáculos, destaca-se a dificuldade de acompanhamento de aulas na modalidade online, uma vez que, muitos alunos não possuem hardwares (computadores, notebooks, etc.), nem têm acesso a conexão com a internet. Além das questões socioeconômicas, existe também o problema de acesso das pessoas com deficiência, que necessitam de recursos que não são oferecidos na modalidade online. Estes quadros trazem para cena as diferenças socioeconômicas estruturais que assolam o país.

 Considerando o exposto, o retorno às aulas na modalidade presencial pode significar a propagação da COVID-19, enquanto o retorno em uma modalidade digital pode contribuir para aumentar as desigualdades no país. Sendo assim, seja qual for a modalidade de retorno das atividades de ensino, ela precisa ser pensada e planejada, de forma criteriosa, evitando o risco de contaminação e de aumento das diferenças sociais. No entanto, é importante reforçarmos que, apesar de estarem as atividades de ensino suspensas, as universidades e os professores continuam trabalhando ativamente, sobretudo no enfrentamento e combate à COVID-19, mostrando a importância social da universidade pública.

Referências

PAIXÃO, André. “Só 6 das 69 universidades federais adotaram ensino a distância após paralisação por causa da Covid-19”. G1. 14/05/2020. Disponível em: https://g1.globo.com/educacao/noticia/2020/05/14/so-6-das-69-universidades-federais-adotaram-ensino-a-distancia-apos-paralisacao-por-causa-da-covid-19.ghtml. Acesso em: 01/06/2020.

REDAÇÃO. “Quase 1 milhão de alunos de universidades federais não têm aula há 2 meses”. Redação UOL, São Paulo, 14/05/2020. Disponível em: https://educacao.uol.com.br/noticias/2020/05/14/universidades-aulas-a-distancia.htm . Acesso em: 03/06/2020.

REDAÇÃO. “De norte a sul, a corrida da ciência e das universidades públicas contra a covid-19”. Redação RBA, 01/04/2020. Disponível em: https://www.redebrasilatual.com.br/saude-e-ciencia/2020/04/de-norte-a-sul-a-corrida-das-universidades-publicas-contra-a-covid-19/. Acesso em: 01/06/2020.

SANTOS, Ana Luísa. “Universidades federais tem 823-pesquisas em andamento sobre o coronavírus”. Correio Braziliense, Brasília, 11/05/2020. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/eu-estudante/ensino_ensinosuperior/2020/05/11/interna-ensinosuperior-2019,853573/universidades-federais-tem-823-pesquisas-em-andamento-sobre-o-coronavi.shtml . Acesso em: 03/06/2020. 

TOKARNIA, Mariana. “Universidades federais conduzem mais de 800 pesquisas sobre covid-19”. Agência Brasil, 11/05/220. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2020-05/universidades-federais-conduzem-mais-de-800-pesquisas-sobre-covid-19. Acesso em: 01/06/2020.

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