Um metro, dois metros ou mais? Afinal, qual é o distanciamento físico seguro contra o novo coronavírus?

Autora: Melissa Markoski (@melmarkoski)

Revisado por: Marcelo Bragatte(@marcelobragatte) e Rute Maria Gonçalves de Andrade (@rutemga2)

Imagem adaptada de https://br.freepik.com/

Você já deve ter se perguntado o motivo das autoridades de saúde informarem que precisamos manter um distanciamento de um a dois metros entre as pessoas para que não nos infectemos com o SARS-CoV-2, o vírus causador da COVID-19, não é mesmo? Afinal, o que é “certo” (ou evidência científica) e o porquê desse comprimento? É o que iremos tentar esclarecer aqui.

Um estudo publicado recentemente por pesquisadores da Universidade de Oxford (Reino Unido) e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, Estados Unidos) [1] trouxe a discussão à tona. E o primeiro aspecto que precisamos analisar diz respeito à dispersão das gotículas que emitimos ao falar, espirrar ou tossir. Para auxiliar, peço para que você acompanhe a imagem apresentada na Figura 1 e observe que, ao espirrar, a pessoa produz gotículas de diferentes tamanhos, que podem ser agrupadas em dois grandes grupos: no primeiro, há as gotículas menores que 0,5 micrômetros (mostradas no círculo), também chamadas de aerossóis e que podem permanecer durante certo tempo suspensas no ar; no segundo grupo, representado pelo retângulo, temos as gotículas maiores que 0,5 micrômetros que, devido ao peso, tendem a cair mais rapidamente. Porém, você pode notar que essa nuvem de partículas também é heterogênea e já definida pelos pesquisadores do MIT como uma “cascata fluídica complexa”. 

Figura 1. O espirro e a emissão de gotículas. O círculo representa as gotículas menores do que 0,5 micrômetros; o retângulo, as maiores. Imagem adaptada de https://www.infectioncontroltoday.com/view/sneezing-produces-complex-fluid-cascade-not-simple-spray.

Em estudos do final do século XIX e, mais tarde, na década de 40, baseados em coleta de amostras para placas de cultivo bacteriano e em imagens de close up de espirros, tosse ou fala, constatou-se que bactérias podem ser coletadas a partir de diferentes distâncias da pessoa de origem, dependendo do tipo de gotícula liberada. Nestas análises, na grande maioria dos casos (65%), os patógenos estavam nas gotículas maiores, que se localizam no entorno da pessoa; no entanto, em 10% dos casos, os patógenos puderam ser coletados a uma distância de 1,7 a 2,9 metros da origem. Após o início da pandemia, a pedido da Organização Mundial de Saúde (ONU), o Grupo Consultivo Científico para Emergências do Reino Unido (SAGE) estimou que o risco de transmissão do SARS-CoV-2 a um metro pode ser 2-10 vezes maior do que em dois metros (respectivamente, 12,8% maior quando comparado a 2,6%). Entretanto, o SAGE se baseou em uma revisão sistemática que apresenta alguns vieses de agrupamento e análise. E, apesar das limitações de precisão dos estudos, assumiu-se a distância de um a dois metros como regra de distanciamento.

Conforme demonstrado, existe complexidade nos tamanhos das gotículas emitidas. Assim, a regra do um-dois metros, em parte, ignora a física das emissões respiratórias, onde gotículas de todos os tamanhos são presas e movidas pela turbulenta nuvem de gás exalada e que as mantêm concentradas enquanto as transporta por metros em poucos segundos. Depois, a ventilação e padrões específicos de fluxo de ar fazem com que essa nuvem desacelere. Nesse contexto, uma revisão sistemática foi conduzida para evidenciar a distância horizontal percorrida pelas gotículas respiratórias [2]. Dos dez estudos incluídos, oito mostraram que as gotículas deslocaram-se por mais de dois metros; em alguns casos, mais de oito metros (!). Estudos que foram incluídos com análises específicas sobre a emissão de gotículas contendo o SARS-CoV-2, documentaram o vírus a uma distância de quatro metros do paciente e detecção no ar após três horas de aerossolização (lançamento de aerossóis por tambor rotativo). Essas observações alertam para o cuidado que os profissionais de saúde precisam ter para gerenciar os riscos relacionados à contaminação com a COVID-19.

O fluxo de ar exalado, bem como o fluxo de ar presente próximo à pessoa que fala ou espirra, também poderão influenciar no deslocamento das gotículas, fazendo com que possam diferencialmente se propagar para mais perto ou longe. Assim, em intensa exalação, nuvens de pequenas gotículas podem se deslocar além de dois metros no ar, e até mesmo grandes gotículas têm alcance aprimorado. É o que ocorre para gotículas contendo o vírus do sarampo ou varicela, por exemplo. Isso impacta diretamente no distanciamento físico que, em alguns casos, necessita ser aumentado para que as pessoas não se infectem quando próximas a indivíduos contaminados. Adicionalmente, de nove estudos que os pesquisadores de Oxford e do MIT avaliaram, dois deles observaram a presença de SARS-CoV-2 em amostras coletadas a uma distância maior que dois metros do paciente infectado: um a 2,18 metros; o outro, a quatro metros de distância. Dois outros estudos detectaram a presença do vírus em amostras coletadas a partir de condicionadores de ar (que estariam distantes a mais de 2 metros do paciente). Felizmente, nestes estudos, as amostras de SARS-CoV-2 coletadas não apresentaram partículas viáveis. Assim, cabe destacar que os estudos, ainda que com número amostral pequeno, suportam que o vírus se espalha pelo ar, mas não confirmaram o risco de transmissão da doença. Humm, e será que não há transmissão a distâncias maiores que dois metros mesmo?

Observe o que ocorreu nessa apresentação de um coro nos Estados Unidos em março deste ano (Figura 2) [3]: apesar do distanciamento físico, um cantor que estava sintomático para a doença contaminou outros 32 cantores e deixou outros 20 como prováveis infectados. E foram outros tantos surtos assim em academias, call centers, cruzeiros, festas clandestinas, igrejas, etc. O que esses locais têm em comum? O fato de que as pessoas cantam ou falam alto, ou seja, exalam e projetam as gotículas a maiores distâncias.

Figura 2. Contaminação de cantores em um coro a partir de um único indivíduo sintomático no Condado de Skagit (WA, USA). Imagem adaptada de https://www.cdc.gov/mmwr/volumes/69/wr/mm6919e6.htm.

  O ponto principal que o estudo do Dr. Jones e colegas defende é o de que as influências ambientais são complexas com relação à disseminação do SARS-CoV-2  e, provavelmente, são mutuamente reforçadas. Podemos exemplificar mencionando os surtos da COVID-19 em frigoríficos: condições insalubres, má ventilação, muito ruído (o que leva as pessoas a falarem alto), além da baixa conformidade do uso das máscaras. E é nítido, como já mostrado em um texto aqui da rede, a importância do uso da máscara para prevenção da COVID-19 em concomitância a outras ações, como o distanciamento e a higienização de mãos. É preocupante o que temos acompanhado nas notícias como festas ou churrascos com aglomeração de pessoas (falando alto) e sem máscaras. Neste sentido, o estudo reforça que a avaliação de risco, um termo de Biossegurança que serve para identificar vulnerabilidades para projetar e implementar medidas de controle e proteção [4], faz-se necessária com relação ao distanciamento físico. Assim, os espaços seriam avaliados quanto ao seu tempo de ocupação, tipo de ventilação, o uso da máscara, se o ambiente é silencioso ou ruidoso, contato, etc. para, a partir disso, estipular-se o que seria o distanciamento físico seguro. Claro que temos muitos outros fatores, no que tange à transmissão do SARS-CoV-2, como a carga viral do emissor, duração da exposição e suscetibilidade de um indivíduo para infecção, que também são importantes. Portanto, enquanto ainda estamos no processo de entender a doença e sua transmissão, precisamos ter a ciência de que apenas uma ação específica não será capaz de nos proteger, e sim o somatório responsável de várias atitudes. 

Melissa Markoski

Bióloga, mestre e doutora em Biologia Celular e Molecular pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com estágios pós-doutorais em Imunologia e Câncer na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA); docente da área de Biossegurança na UFCSPA.

Referências

[1] Jones NR, Qureshi ZU, Temple RJ, Larwood JPJ, Greenhalgh T, Bourouiba L. Two metres or one: what is the evidence for physical distancing in covid-19? BMJ. 2020;370:m3223. doi:10.1136/bmj.m3223

[2] Bahl P, Doolan C, de Silva C, Chughtai AA, Bourouiba L, MacIntyre CR. Airborne or droplet precautions for health workers treating COVID-19? J Infect Dis. 2020;jiaa189. doi:10.1093/infdis/jiaa189

[3] Hamner L, Dubbel P, Capron I, et al. High SARS-CoV-2 attack rate following exposure at a choir practice—Skagit County, Washington, March 2020. MMWR Morb Mortal Wkly Rep 2020;69:606-10. doi: 10.15585/mmwr.mm6919e6

[4] Markoski MM, Bica CG (organizadoras). Biossegurança e pesquisa em tempos de COVID-19. Editora da UFCSPA, 112p. 2020.

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