“Eu nos protegerei”: o ato de se vacinar em um mundo assombrado pela desinformação

Autora: Mellanie F. Dutra (@mellziland)

Revisão: Isaac Schrarstzhaupt (@schrarstzhaupt), Rute Andrade (@rutemga2)

Imagem: Dia D da vacinação, fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2020-10/dia-d-da-campanha-de-vacinacao-de-criancas-e-adolescentes-sera-amanha

As gerações mais atuais convivem com a vacina quase que como uma rotina. Nosso calendário demanda aplicações que começam na primeira infância e nos acompanham por toda a vida. Esse cronograma se respalda no custo-benefício de vacinar-se, controlando doenças ditas como imunopreveníveis (que somos capazes de evitar a partir do “treinamento” do sistema imunológico em reconhecer seus microorganismos-chave). O Ministério da Saúde (MS) oferece, de forma gratuita, uma diversidade de tipos de vacinas, muitas delas sendo parte de campanhas de vacinação, como a vacina da gripe anual. Essas ações são coordenadas pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI), da Secretaria de Vigilância em Saúde do MS [1]. Esse método é barato, quando comparado a outras formas de controle de doenças infectocontagiosas e, ao mesmo tempo, tem um custo-benefício maior quando comparamos ao uso de medicamentos, para essas mesmas doenças [2]. Quando a cobertura vacinal, ou a quantidade de pessoas que se vacinaram contra um agente infeccioso, é grande o suficiente, podemos erradicá-lo. É o caso da varíola, em que, no dia 8 de Maio de 1980,  a 33ª Assembleia Mundial da Saúde declarou que “o mundo e todos os seus povos estão livres da varíola”, em pronunciamento oficial [3]. Segundo a Organização Panamericana de Saúde e a Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS), a varíola esteve presente por cerca de 3 mil anos, contabilizando 300 milhões de óbitos apenas no século XX [3]. Doenças como o sarampo, poliomielite, rubéola e difteria também são evitáveis por meio da vacinação e, por um tempo, tiveram sua circulação controlada na população. Recentemente, um texto de uma participante da Rede foi publicado no Twitter, apontando fatos relevantes sobre a cobertura vacinal dessas quatro doenças preveníveis por vacina acima mencionadas, evidenciando que não só a nossa cobertura vacinal está caindo, mas também que as pessoas estão se tornando mais hesitantes em relação a esse método que tanto nos protege.

A proteção, a segurança e a eficácia das vacinas são  respaldadas por um processo extenso, altamente robusto e com muitos pontos de checagem/avaliação quanto às suas etapas. Compreende desde a fase exploratória, análise e pesquisa de possíveis moléculas promissoras para gerar uma resposta imunológica, até estudos envolvendo centenas de milhares de indivíduos, como observados na 3º fase dos ensaios clínicos. Uma vez tendo indicativos da molécula promissora (que pode ser o próprio agente infeccioso atenuado ou inativado), dá-se seguimento para a fase pré-clínica, no intuito de validar em modelos animais, antes de iniciar os estudos em humanos. Os estudos clínicos compreendem essas investigações com humanos, iniciando com dezenas de indivíduos para investigar preliminarmente a segurança (fase 1), e centenas de indivíduos para investigar o tipo de resposta imunológica desencadeada e suas particularidades, somado a mais dados de segurança, na fase 2. Na fase 3, a fase crucial nessa investigação, batemos o martelo sobre se a vacina, além de ser segura e desencadear uma resposta imunológica no organismo, é eficaz. Ser eficaz significa que, se o indivíduo vacinado for exposto ao vírus, a vacina o protegerá e a doença não se desenvolverá. Somado a isso, uma vez que podemos estar testando em centenas de milhares de indivíduos, observamos a presença dos efeitos adversos raros na população, tornando ainda mais robusta sua segurança. Abaixo, uma imagem ilustrativa dessas fases de desenvolvimento elaborada pela Rede Análise COVID-19:

A Rede Análise COVID-19, uma rede nacional de pesquisadores voluntários para o enfrentamento da pandemia do novo coronavírus, publicou uma coletânea de textos sob uma perspectiva histórica das epidemias Brasileiras, organizada pelo historiador Eduardo Haas [15]. É notável que muito do que estamos vendo hoje, tanto a nível de comportamentos individuais em relação a percepção da pandemia na sociedade, quanto nas ações enquanto coletivo, são muitas vezes réplicas do que fizemos em pandemias e epidemias de outrora. De forma similar, na gripe espanhola, governos estaduais mobilizaram-se para o combate à doença [16], houve falta de leitos para os enfermos,  falta de notificação precisa de casos e óbitos da doença, bem como o acolhimento possível para todos [17]. Sendo assim, fica nítido que nos falta a revisitação ao nosso próprio passado e a consciência da nossa própria história, a fim de não repetirmos os erros que sabemos como ocorrem e por quais razões acontecem. Além disso, estamos vendo um crescente número de pessoas hesitantes quanto a vacinação, fenômeno este associado ao crescimento de movimentos anti-vacinação no país e no mundo. Mais do que nunca, e não só para a COVID-19, precisamos revisitar nossa história e entender que os grandes ganhos que tivemos em nossa saúde, qualidade de vida e bem estar nosso, dos nossos filhos e da sociedade são atrelados às  campanhas de vacinação, melhoras na condição de assistência e saúde e, principalmente,  às atitudes em prol da sociedade. Vacinar-se é um ato de cuidado, de responsabilidade e um comprometimento crucial com a saúde de todos. Celebremos a vida e a saúde com as ferramentas que as protegem e defendem!

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