Testes, jantares e baladas

Autor: Fernando Kokubun @fernandokokubun

Revisores: Angel Miríade (@myriad_angel), Mellanie F. Dutra (@mellziland), André Luis M. Sales (@andremelo51)

Após mais de 6 meses de pandemia, continuamos vivendo em uma situação de isolamento precário, sem um controle adequado de distanciamento físico, de higienização, uso de máscaras, com reaberturas em situações não ideais de diversas atividades. Isso trouxe como consequência o alongamento da situação de pandemia no Brasil, e, possivelmente, os casos não aumentaram de maneira exponencial, devido à existência de uma parcela considerável da população que mantém um isolamento mais restrito. Isto traz um forte desgaste para as pessoas, principalmente para aquelas que não tem condições de moradia adequada, ou empregos mais estáveis. Somando a tudo isso, o negacionismo explícito dos governos, desde o nível federal ao municipal, faz com que uma parte da população comece a negligenciar os cuidados de proteção contra a COVID-19 [1,2].

Mesmo entre a parcela da população que tem consciência da situação preocupante da pandemia, o desejo de deixar o confinamento e as medidas de distanciamento social acaba se tornando mais presente. Consequentemente, essas pessoas tentam descobrir alguma maneira de poderem voltar a ter um mínimo de convívio social. Uma das escolhas é realizar um teste prévio (muitas vezes inadequado para o caso delas), e recebendo um resultado negativo, se sentem livres para uma saída para um jantar, festas e baladas com amigos. Com o raciocínio de que não estão infectados e de que, portanto, não iriam transmitir o SARS-CoV-2 para outras pessoas, sentem sua consciência aliviada da culpa por uma eventual contaminação que possa acontecer [2]. E se TODOS realizarem os testes, e se o resultado for negativo, estariam seguros para se encontrarem. Esta é variante do chamado passaporte imunológico. A idéia é de que se apenas pessoas não infectadas, com teste negativo recente, se encontrarem, não vai ocorrer contaminação. A idéia do passaporte imunológico seria de fornecer uma certificação para as pessoas que já tiveram a COVID-19, e supostamente estariam livres de futuras infecções [3].

Mas será que esta variante do passaporte imunológico realmente nos daria a garantia de que o encontro/reunião estaria livre de possíveis infecções? A resposta é simplesmente NÃO. Para entender a razão, primeiro vamos fazer uma rápida descrição dos testes disponíveis e qual é a janela de tempo para fazer cada teste [4,5].

Podemos classificar inicialmente os testes em dois grandes grupos: sorológicos e moleculares. A primeira diferença significativa é referente ao tempo necessário para obter resultados: o teste molecular é mais demorado (algumas horas), já os diferentes testes sorológicos entregam resultados em tempos menores, podendo variar entre quase imediato a até algumas horas.

Há outra diferença importante: os testes sorológicos verificam a existência de anticorpos no sangue, enquanto o teste molecular analisa a presença de material genético do vírus nas amostras coletadas. Esta diferença já nos indica o melhor momento para fazer cada tipo de teste. Para o teste molecular, uma vez que estamos buscando a presença do material genético do vírus nas amostras, precisamos que a infecção seja muito recente para encontrá-lo em quantidades detectáveis, por isso sua indicação é tão logo possível após a suspeita de um contato com alguém confirmado para COVID-19. Para que existam anticorpos  no sangue, é necessário que a pessoa já tenha sido infectada e o sistema imunológico tenha reagido e produzido esses anticorpos. Para o teste sorológico isto indicaria que o teste deve ser realizado após sete dias do início dos sintomas, quando tem início a produção de um tipo específico de imunoglobulina (a IgM), o que indica que houve um contato recente com o vírus. Após 11 dias começa a produção de outro tipo de  imunoglobulina (IgG), indicando o desenvolvimento da imunidade que tem capacidade de neutralizar o vírus e resolver a infecção [4] (que não é necessariamente uma imunidade permanente, este caso depende de outros fatores para ocorrer). Um grande problema com os testes sorológicos é que o percentual de testes positivos falsos ou negativos falsos, ainda é elevado. Aqui extraímos um trecho de  uma pesquisa sobre os diferentes tipos de testes [5, 6]:

Suponhamos que uma determinada população de 1000 pessoas com uma prevalência de circulação do vírus de 10% seja testada para o novo coronavírus utilizando testes rápidos, teríamos os seguintes resultados:

Entre POSITIVOS: 66 pessoas terão teste confirmado positivo / 34 pessoas serão incorretamente diagnosticadas como negativos

Entre NEGATIVOS: 869 pessoas terão teste confirmado negativo / 31 pessoas serão incorretamente diagnosticadas como positivo

Indicando claramente que entre as pessoas que recebem teste positivo, 34% seriam falso positivo (34 em 100 positivos) e entre as pessoas que recebem teste negativo, 3,4% (31 em 900 negativos) seriam falso negativo nos testes sorológicos rápidos.

Os testes moleculares são considerados os melhores testes, mas a janela para realizá-lo vai do terceiro ao sexto dia após o início dos sintomas [4,5]. Antes ou depois deste período aumentam as chances de resultados falso negativo, o que é bastante preocupante, pois a pessoa ainda pode transmitir o vírus nesta etapa. E um teste negativo pode apenas indicar que a carga viral está abaixo do limiar de detecção, não significando necessariamente que a pessoa esteja livre do vírus [4]. Os testes moleculares, considerados padrão ouro, têm menos chance de apresentar falsos positivos (que pode ocorrer devido a contaminação durante o processo) ou falso negativo (devido a coleta incorreta), como podemos ler em [7]:

Esta técnica é geralmente muito sensível (ou seja, capaz de detectar casos verdadeiros positivos) e específica (ou seja, capaz de evitar resultados falso-negativos).Se um RT-PCR for positivo, o resultado provavelmente estará correto (o falso positivo pode ocorrer no caso da mostra não positiva ser contaminada por material viral, durante o processamento do teste, por exemplo). Resultados falso-negativos também são possíveis com a RT-PCR, mas estas situações são mais frequentes nos casos de resultados de amostra incorreta do paciente como, por exemplo, esfregaços insuficientes na nasofaringe dos pacientes.

De forma que os eventuais erros no método molecular estão associadas ao processo de coleta, e não necessariamente no método de análise, como ocorre com o teste sorológico rápido.

De maneira bem resumida, os tipos de testes, a sua indicação e a janela de teste estão resumidas na Tabela 1.

Tipo de testeJanela de testeIndicado para
sorológico/rápidoSete dias após o início dos sintomas .Detectar a presença de anticorpos, para verificar se a pessoa está com covid (IgM)  ou se já foi exposto ao covid ( IgG)
molecularDe 3 a 6 dias do início dos sintomas.Detectar se a pessoa está com covid

Retornando ao início do texto, algumas pessoas desejosas de participar, por exemplo, de um jantar familiar, mas cientes da gravidade da pandemia, resolvem antes tomar uma providência: que todas as pessoas que irão participar do jantar façam testes previamente ao evento. E, nesse caso, somente pessoas com testes negativos participaríam do evento. Este é o relato que consta em [2]

(…) de grupos de jovens adultos que vão fazer o teste para o coronavírus em uma quinta-feira na esperança de obter resultados negativos no sábado de manhã, e então dar um jantar na noite de sábado.

Mas esses testes fornecem uma falsa sensação de segurança – e o envolvimento nessa prática ainda pode fazer com que o jantar se transforme em um evento de super-propagação que pode transmitir o vírus altamente contagioso amplamente.

A razão para a preocupação está relacionada ao fato de que ter obtido um teste negativo não necessariamente indica que a pessoa não esteja contaminada, pois esse resultado pode ser um falso negativo, seja o teste molecular (pois o teste foi realizado fora do período adequado) ou o sorológico (baixa especificidade e baixa sensibilidade). Assim,a pessoa pode estar com o vírus, mas ainda na fase em que não é possível ser detectado. E mesmo que sejam um negativo real, exceto se a pessoa tenha ficado totalmente isolada após o teste, existe a possibilidade da pessoa ficar contaminada no período entre a realização do teste e a realização do jantar. Então este tipo de comportamento, aparentemente responsável (somente ir a encontros com teste negativo), não é uma atitude correta e deve ser evitada. Além de ser um desperdício de recursos da pessoa e dos equipamentos/reagentes utilizados no teste.

Aliado a este tipo de comportamento de pessoas que fazem os testes para poderem socializar, existem também aqueles que estão cansados do longo período em que ficaram isolados e que, por conta disso, resolvem romper com o isolamento [8]

“As pessoas abriram mão do distanciamento social, da higienização das mãos com álcool em gel e do uso correto de máscara, e voltaram a fazer festas, reunir amigos em grupos grandes, viajarem com grupos que não são do convívio diário, irem a bares e restaurantes”, avalia Raquel Stucchi, professora de Infectologia da Unicamp . “(…) Agora, possivelmente, temos pessoas que estavam em home office e circularam menos, mas começaram a sair sem os cuidados devidos, expondo-se ao vírus”, acrescenta.  

As consequências destes enfraquecimentos de medidas preventivas têm contribuído substancialmente para o aumento de casos de COVID-19 no Brasil. A esse respeito, o Professor Paulo Lotufo, da Faculdade de Medicina da USP, compara essa situação ao caso de um avião que estava descendo e que, sem pousar, subitamente volta a subir [9]. E, ao contrário da Europa, em que ocorreu uma redução efetiva dos casos de COVID-19, mas que agora está vivendo a sua segunda onda, o Brasil não conseguiu controlar a primeira onda e está retomando o aumento de casos. O que é muito preocupante para o controle efetivo da pandemia no Brasil.

Entendemos que as pessoas estão cansadas, algumas necessitando sair para trabalhar, mas o momento da pandemia não é fácil. Portanto, sugerimos que as pessoas que podem realizar suas atividades de trabalho em casa, permaneçam em casa, para reduzir o número de pessoas circulando nas ruas. Assim, as pessoas que realmente não têm opções, podem se deslocar com mais segurança. E sobretudo, recomendamos manter o cuidado com a higienização dos locais, utilizar máscaras em locais públicos, higienizar com frequência as mãos e outros cuidados pessoais e coletivos. Não é um momento de relaxar, pois fazendo isto estaremos jogando fora todo o sacrifício que está sendo realizado até agora.

Referências 

[1] Aumento de casos de Covid-19 é realidade no Brasil. O que isso significa?

https://saude.abril.com.br/medicina/aumento-de-casos-de-covid-19-e-realidade-no-brasil-o-que-isso-significa/amp/

[2] Some in L.A. are getting COVID-19 tests so they can party, socialize. Officials call this a disaster. By Rong-Gong Lin II, Luke Money, 16 de Novembro de 2020, LA Times. 

https://www.latimes.com/california/story/2020-11-16/some-in-l-a-are-getting-covid-19-tests-so-they-can-party-socialize-officials-call-this-a-disaster/

[3]  Ten reasons why immunity passports are a bad idea. N.Kofler, F. Baylis; Nature 581, 379-381 (2020)  https://doi.org/10.1038/d41586-020-01451-0;  The scientific and ethical feasibility of immunity passports; R C H Brown e outros; The Lancet , 16 de outubro de 2020 https://doi.org/10.1016/S1473-3099(20)30766-0.

[4]Testes para a Covid-19: como são e quando devem ser feitos

https://portal.fiocruz.br/noticia/testes-para-covid-19-como-sao-e-quando-devem-ser-feitos

[5] Exames laboratoriais no diagnóstico da Covid-19: para onde devemos olhar?

[6] Diagnostic accuracy of serological tests for covid-19: systematic review and meta-analysis. M.L. Bastos e outros; BMJ2020;370:m2516;

http://dx.doi.org/10.1136 bmj.m2516

[7] Nota Técnica: Considerações sobre o diagnóstico laboratorial da Covid-19 no Brasil. A. L. Pavão e outro; Observatório COVID, Fio Cruz, 2020. https://www.arca.fiocruz.br/bitstream/icict/42557/2/Considera%C3%A7%C3%B5esDiagnosticoLaboratorialPandemia.pdf

[8] Hospitais de elite de São Paulo veem aumento de internações da covid-19. Felipe Resk, Ludimila Honorato e João Ker, O Estado de S.Paulo

Atualizado 11 de novembro de 2020 | 23h35.

https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,hospitais-privados-de-sao-paulo-veem-aumento-de-internacoes-da-covid-19,70003510631/

[9] Pandemia de coronavírus começa a dar sinais de novo crescimento no Brasil. Luiza Caires, Jornal da Usp, 16 de novembro de 2020.

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