Atualização: tipo sanguíneo e novo coronavírus

Texto: Amanda Gonzalez (facebook: amanda.gonzalez.5264)

Revisão: Larissa Brussa Reis (@laribrussa), Mateus Falco (@mateuslfalco) Rafaela da Rosa Ribeiro (@dra.rafaribeiro)

Imagem: RESUMO ESCOLAR. Sangue: Sistema ABO. Disponível em: https://www.resumoescolar.com.br/biologia/sangue-sistema-abo/. Acesso em: 23 abr. 2020.

No mês de abril de 2020, a Rede Análise Covid-19 publicou um texto sobre a primeira pesquisa que propôs uma relação entre o tipo sanguíneo e o adoecimento pela COVID-19. O trabalho, escrito por Zhao e colaboradores, ainda não tinha sido revisado por pares na época, precedente necessário para publicações em revistas de alto impacto, situação que mudou em agosto, quando foi aceito para publicação pela revista científica Clinical Infectious Diseases [1]. A análise mostrou que os indivíduos que possuem sangue do tipo A seriam os mais propensos a serem infectados e a morrerem pela COVID-19, enquanto os indivíduos com sangue do tipo O seriam menos propensos. Desde então, outros estudos buscaram confirmar ou refutar esse fenômeno. Vamos a eles.

Em abril, um grupo de pesquisadores chineses liberou um estudo preprint (ainda não publicado e não revisado por pares) sobre o tema na plataforma medRxiv. Neste estudo, foi avaliado um grupo de 234 pacientes com COVID-19. Os sintomas eram leves em 137 pacientes e graves em 97 pacientes. Comparando essa amostra com a porcentagem de tipos sanguíneos da população geral do país, observou-se uma prevalência significativamente maior de indivíduos de sangue A no grupo de infectados, sendo 35,76% entre os pacientes com COVID-19 leve e 39,22% entre aqueles com COVID-19 grave, ao passo que a porcentagem estimada na população geral de tipo sanguíneo A era de 28,39%. Esse dado indica um maior risco de infecção para o tipo sanguíneo A. Também foi observada uma tendência de menor risco de infecção entre os indivíduos do tipo O, visto que a proporção entre os infectados ficou abaixo daquela estipulada para a população geral, porém não de forma significativa. Com relação ao risco de agravamento da doença, não foi observada diferença entre os tipos sanguíneos. Não foi possível realizar análise estatística para pessoas de sangue AB devido ao baixo número de indivíduos do estudo, e o fator Rh não foi avaliado – lembrando que a prevalência de indivíduos Rh negativos na China é baixíssima, variando de 0,4 a 1% na população [2, 3].

Em maio, um estudo iraniano analisou o tipo sanguíneo de 397 pacientes com COVID-19 atendidos no Complexo Hospitalar Imam Khomeini, em Teerã. O estudo utilizou como controle 500 pacientes que já tinham sido atendidos no hospital em 2019 (antes da circulação do vírus SARS-COV-2) e tinham registro prévio da tipagem sanguínea. O estudo demonstrou que indivíduos do grupo AB têm significativamente mais chances de se infectar (9,3% no grupo de pacientes contra 5% no grupo controle), enquanto os do grupo O possuem menor chance (28% entre os pacientes contra 38% nos controles). Diferenças significativas quanto ao Rh ou à severidade da doença não foram observadas [4]. No mesmo período em Wuhan (China) outro grupo de pesquisadores publicou um estudo que buscou complementar o trabalho pioneiro de Zhao e colaboradores de abril. Neste estudo, foram incluídos 265 pacientes com COVID-19 que estiveram internados no Hospital Central de Wuhan entre fevereiro e março de 2020, porém sem dar detalhes sobre a gravidade de seus sintomas. As análises dos 265 pacientes mostraram que a porcentagem de indivíduos do tipo sanguíneo O infectados era significativamente menor do que a média da população geral (redução de 33,8% para 25,7%), enquanto a porcentagem de indivíduos do tipo sanguíneo A era maior – 39,3% de infectados em comparação com 32,3% na população controle. Combinando esses dados com os dos 1888 pacientes de Wuhan do estudo de abril, essa relação mostrou ser significativa. Contudo, diferindo de Zhao e seu grupo, não foi vista diferença significativa quanto à mortalidade por COVID-19 entre os diferentes tipos sanguíneos. Ademais, a análise de comorbidades foi realizada nos 265 pacientes (o primeiro estudo não contava com essa informação): “Em relação às doenças crônicas, nós descobrimos que a proporção de hipertensão e hepatite em indivíduos de tipo sanguíneo A infectados é muito maior do que naqueles do grupo controle; contudo, não há literatura até então que indique que hipertensão e hepatite aumentem o risco de infecção pelo SARS-CoV-2.” (tradução livre). Esse dado, apesar da observação dos autores, aponta para um importante viés no estudo, visto que as comorbidades citadas podem justamente ter sido a causa do aumento da sintomatologia da doença, fazendo com que essas pessoas procurassem atendimento no hospital, sendo contabilizadas. Assim, o aumento aparente de infectados de tipo sanguíneo A pode não estar, de fato, relacionado unicamente com o tipo sanguíneo dos pacientes. Devemos lembrar que uma coorte de pacientes obtida unicamente de atendimentos hospitalares não é totalmente fiel à epidemiologia da COVID-19, visto que muitos casos leves e assintomáticos não são contabilizados. Outra análise importante a ser feita nessa pesquisa seria a comparação da prevalência de comorbidades entre os diferentes grupos sanguíneos de infectados, mas tal relação não é citada no artigo. O fator Rh não foi motivo de análise [5].

Em junho, um grande grupo de pesquisadores auto-denominado “The Severe Covid-19 GWAS Group”, ou Grupo de Estudos de Associação Genômica Ampla em COVID-19 Severa, comparou milhões de marcadores genéticos entre pacientes com COVID-19 internados (quadro agravado) e pacientes controle (sem a doença). Os marcadores genéticos analisados são os chamados SNPs, sigla para polimorfismos de nucleotídeo único, que nada mais são do que diferenças pontuais que os seres humanos têm naturalmente em seu material genético, ou genoma (o DNA que temos nas nossas células). Ter um determinado polimorfismo pode ou não ter alguma implicação funcional perceptível no organismo, ou seja, pode alterar a síntese de proteínas e moléculas em nossas células e tecidos. Para este estudo de comparação de SNPs, participaram 1980 pacientes que estiveram internados em hospitais da Itália e da Espanha por COVID-19, além de 2381 indivíduos controle, sendo em sua maioria doadores de sangue dessas duas nações. O grupo de pesquisadores analisou  alguns SNPs presentes no gene responsável por determinar o tipo sanguíneo, localizado no cromossomo 9, e realizou a tipagem sanguínea individual de todos os participantes através desses marcadores. De posse dessa informação, os pacientes e os controles, assim como os pacientes entre si, foram comparados em relação aos quatro tipos sanguíneos principais: A, B, AB e O. O antígeno Rh não foi avaliado, visto que seu gene encontra-se em outro cromossomo. Seguindo a mesma tendência dos outros estudos, o resultado desta análise comparativa mostrou um risco maior para insuficiência respiratória e COVID-19 no grupo sanguíneo A do que em outros grupos sanguíneos e um efeito protetor no grupo sanguíneo O em comparação com outros grupos sanguíneos. Um dos vieses importantes a serem considerados nesse resultado está no grupo controle utilizado, visto que a proporção dos tipos sanguíneos de quem doa sangue não necessariamente reflete a proporção da população em geral. Os autores, no entanto, discutem que essas proporções não diferiram significativamente daquelas obtidas em grupos controle de não doadores [6, 7]. Outros dois estudos menores que também tiveram esse viés em seus grupos controle foram publicados em junho. Um deles foi realizado no Hospital Central de Qatif (Arábia Saudita) e o outro no Hospitais da Universidade de Hacettepe (Turquia), tendo contado com os dados de 72 e 186 pacientes com COVID-19, respectivamente. O primeiro concluiu que indivíduos do grupo sanguíneo AB teriam maior risco de se infectar pelo SARS-CoV-2, ao passo que o segundo concluiu que aqueles do grupo A estariam sob maior risco. Ambos encontraram diferenças significativas entre a proporção de indivíduos de tipo sanguíneo O no grupo controle em relação ao grupo infectado, revelando que pessoas desse grupo teriam menor risco de contrair a doença. O Rh foi avaliado apenas no estudo turco, porém não foi encontrada diferença entre os grupos para esse fator [8, 9].

Também em junho, pesquisadores de dois hospitais de Massachusetts (EUA) assinaram uma carta publicada na revista Transfusion levantando possíveis limitações de estudos que buscam relacionar a COVID-19 com tipos sanguíneos. Eles apontam que, como já destacado neste texto, grupos controle oriundos de bancos de doadores de sangue não devem ser utilizados, pois representam desproporções devido aos vieses de seleção de doadores de sangue (a preferência por doadores do tipo O, por exemplo). Também reforçam que grupos controles advindos de pacientes atendidos em hospitais em meses anteriores à pandemia devem, de preferência, ter sido atendidos no mesmo hospital do grupo de infectados. Isso deve ser observado, pois os hospitais, mesmo os de uma mesma cidade, atendem populações de diferentes etnias e condições sócio-econômicas. Diferentes etnias de um mesmo país podem exibir proporções distintas de tipos sanguíneos, portanto esse fator deve ser levado em consideração na escolha de grupos controle. Adicionalmente, os autores compararam os tipos sanguíneos de 957 pacientes com COVID-19 de dois hospitais de Massachusetts com aqueles de 5840 pacientes atendidos nos mesmos hospitais, no mesmo período, escolhidos randomicamente, e não observaram nenhuma diferença significativa entre eles, gerando dúvidas sobre a realidade das associações encontradas em outros estudos [10].

No início de julho, Latz, DeCarlo e outros colaboradores do estado de Massachusetts (EUA) investigaram 7648 pacientes testados para o novo coronavírus entre os meses de março e abril de 2020. Desses, 1289 pacientes deram positivo, enquanto que 6359 não tinham a doença. Comparando esses grupos, foi observado que indivíduos dos tipos sanguíneos B e AB, assim como os indivíduos Rh positivo, possuíam maior risco de terem resultarem positivo para o vírus, ao passo que os indivíduos com sangue do tipo O apresentaram menor risco de se infectar. Contudo, foi concluído que o tipo sanguíneo não estava relacionado significativamente com nenhum marcador de severidade da COVID-19, como hospitalização e intubação [11]. Outro grupo de pesquisadores estadunidenses analisou o tipo sanguíneo de 2033 pacientes com COVID-19 severa internados nas UTIs de 67 hospitais diferentes do país. A fim de eliminar o viés das diferenças étnicas, o grupo foi dividido em três: brancos, pretos e hispânicos. Utilizando como controle um banco de 3,1 milhões de doadores de sangue, também estratificados por 3 etnias, observou-se que, entre os brancos com COVID-19 grave, o tipo sanguíneo A apresenta maior risco de infecção pelo SARS-CoV-2, enquanto o tipo O possui menor risco. Interessantemente, o mesmo não foi observado para pretos e hispânicos, não havendo diferenças estatisticamente importantes quanto ao tipo sanguíneo entre os pacientes e controles. A análise do Rh não mostrou diferença em nenhum dos grupos, e nenhum tipo sanguíneo teve correlação relativa à maior gravidade ou morte pela doença. As limitações do estudo estão no grupo controle utilizado – doadores de sangue – por motivos já discutidos anteriormente, e na inclusão de apenas pacientes com COVID-19 grave [12]. Em uma abordagem diferente,  um grupo de pesquisadores franceses utilizou dados do início da pandemia na França (entre a última semana de março e primeira de abril) e  testou 998 doadores de sangue assintomáticos para anticorpos contra o SARS-CoV-2. Do total, 27 foram positivos, indicando uma infecção prévia pelo vírus. Ao fazer uma razão entre o número de indivíduos soropositivos doadores de um determinado grupo sanguíneo com o número de soronegativos do mesmo grupo, e comparando essas razões entre os grupos, foi observada uma diferença significativa com relação ao grupo O, que mostrou uma quantidade menor de infectados do que o esperado. Diferenças importantes não foram vistas em relação aos outros grupos sanguíneos, porém o grupo A apresentou uma tendência indicando um maior número de infectados do que o previsto [13].

Em setembro, três pesquisadores da Columbia University (Universidade Columbia – Nova Iorque) disponibilizaram um trabalho preprint que foi posteriormente revisado e publicado na Nature Communications em novembro. Neste trabalho, o grupo buscou associação dos tipos sanguíneos dos pacientes com 3 desfechos da doença: infecção, intubação e morte por COVID-19. As análises mostraram que indivíduos que não tinham sangue do tipo O apresentaram maior risco de se infectar. Porém, contrastando com os achados dos outros trabalhos, foi visto uma diminuição do risco de intubação e de morte em pacientes de sangue tipo A, em comparação aos do sangue tipo O. Adicionalmente, também em relação ao sangue tipo O, foi visto que os pacientes com sangue do tipo B e AB precisaram ser intubados com maior frequência, divergindo em relação ao desfecho morte (indivíduos com sangue do tipo B e AB apresentaram menor e maior risco de falecer, respectivamente). É importante destacar que as diferenças entre os grupos foram bastante modestas e com desvios consideravelmente grandes. Diferente dos outros trabalhos que comentamos, neste a diferença mais significativa se deu na comparação entre pacientes Rh positivo e Rh negativo, que mostrou que indivíduos Rh negativo possuem menor risco de adoecerem por COVID-19, de serem intubados e de virem a óbito por conta dela [14, 15]. Também em setembro, um grupo de pesquisadores da Turquia publicou um estudo em uma revista brasileira sobre essas questões. Nele, avaliaram o tipo sanguíneo de 397 pacientes com COVID-19 e compararam com a proporção desses tipos na população-alvo – já calculada em outros dois estudos. Os tipos de sangue A, B, AB e O não mostraram relação com aumento de severidade da doença, ao contrário do fator Rh, visto que o contingente de pacientes Rh positivos que necessitou de internação em UTI foi significativamente maior do que aquele de indivíduos Rh negativo. Além disso, foi observado que indivíduos com sangue do tipo A foram os mais prevalentes (em proporção maior do que na população controle) dentre os pacientes com COVID-19 do estudo [16]. Em um outro estudo preprint, pesquisadores da empresa de genômica pessoal 23andMe (EUA), em parceria com a farmacêutica GlaxoSmithKline (GSK) (Reino Unido), utilizaram seus bancos de clientes para buscar associações entre características genéticas e severidade da infecção pelo SARS-CoV-2. Primeiramente, eles convidaram usuários da 23andMe para responder questionários de forma online que continham uma série de perguntas sociais, econômicas e de saúde, incluindo inquérito sobre sintomas relacionados à COVID-19 e sobre realização prévia de testes para o vírus. Dos 1.051.032 participantes, 136.555 relataram ter sido testados para o SARS-CoV-2, sendo destes 15.434 positivos. Comparando os tipos sanguíneos obtidos através de análises do genoma dos participantes que testaram positivo para a COVID-19 com aqueles que testaram negativo, foi detectado um menor risco de infecção entre os indivíduos do tipo O. Diferenças significativas entre os tipos A, B e AB e fator Rh não foram observadas. A abordagem do estudo, apesar de ser diferenciada e incluir um grande número de participantes, possui uma série de vieses, sobretudo quanto à forma de seleção dos indivíduos. Também existe a possível falta de confiabilidade dos dados, visto que informações técnicas importantes para o trabalho foram obtidas através de formulário preenchido pelos participantes [17]. 

A revista Blood Advances publicou dois estudos em outubro que contribuíram para o tema. Um deles, desenvolvido no Canadá, analisou os tipos sanguíneos de um pequeno grupo de 95 pacientes com COVID-19 internados em UTI. Pacientes com  tipos sanguíneos A e AB tiveram maior necessidade de  intubação e terapia renal do que indivíduos dos tipos sanguíneos B e O. Quando comparados com a proporção de tipos sanguíneos de doadores de sangue da população, é possível observar uma porcentagem maior de infectados dos tipos sanguíneos A e B (37% de pacientes A contra 34,1-34,7% na população e 17% de pacientes B contra 11,8-13,3% na população), e uma porcentagem menor de infectados com sangue tipo O (43% de pacientes tipo O contra 48,4-49,6% na população), contudo o pequeno e pouco diverso grupo de pacientes do trabalho não permitiu fazer correlações significativas nesse sentido, além de haver novamente um problema quanto ao viés do grupo controle de doadores de sangue [18]. O outro estudo foi conduzido na Dinamarca e contou com um interessante diferencial: os autores analisaram um representativo grupo de pacientes infectados, utilizando dados da “Coorte COVID-19 Dinamarquesa”, que compreende todos os indivíduos que testaram positivo (usando RT-qPCR) no país entre os dias 20 de fevereiro e 30 de julho. Esse dado foi obtido através de um esforço conjunto de diversos bancos de dados da Dinamarca, incluindo até informações do Registro Civil do país. Assim, ao contrário de outros estudos, esse trabalho não contou apenas com indivíduos que foram atendidos em hospitais (geralmente aqueles com maior gravidade), mas também incluiu dados de pacientes atendidos em serviços primários/ambulatoriais de saúde, que apresentavam sintomas mais leves. Dos 473.654 indivíduos testados no período, que tinham seus tipos sanguíneos registrados previamente, 7422 foram positivos para o SARS-CoV-2. Estes 7422 indivíduos tiveram seus tipos sanguíneos comparados com os de outros 2.204.742 dinamarqueses no grupo controle. Não foram observadas diferenças significativas dos tipos sanguíneos A, B, AB e Rh entre os pacientes infectados e os controles. Porém, o sangue tipo O se mostrou menos prevalente no grupo de infectados e, dessa forma, o estudo concluiu que indivíduos com sangue tipo O podem ter menor risco de contrair a COVID-19 (Figura 1) [19, 20]. 

Figura 1: Estudo dinamarquês comparando a proporção dos tipos sanguíneos entre indivíduos infectados pelo SARS-CoV-2 e população controle. Na esquerda o grupo O conta com 38% dos casos positivos, 4% a menos do que a proporção de indivíduos de tipo sanguíneo O na população geral da Dinamarca [19].

Um estudo publicado na edição de outubro da revista Clinica Chimica Acta fez uma análise dos tipos sanguíneos de 187 pacientes chineses com COVID-19 internados em dois hospitais da cidade de Changsha. Comparando com 1991 indivíduos controle que estiveram hospitalizados na cidade anteriormente à pandemia, e de mesma origem étnica, os autores encontraram maior risco de infecção em pacientes de tipo sanguíneo A e menor risco em pessoas do tipo sanguíneo O (36.90% versus 27.47% para o tipo A e 21.92% versus 30.19% para o tipo O). Como outros trabalhos, há limitações quanto ao número de participantes do estudo e quanto à falta de representatividade de doentes leves/assintomáticos e de informações sobre as comorbidades apresentadas [21]. Ainda, um grupo de pesquisadores italianos do Grupo de Estudos de Associação Genômica Ampla em COVID-19 Severa, que publicou um dos artigos do mês de junho, assinou uma carta na revista Transfusion em resposta ao texto dos pesquisadores de Massachusetts que não encontraram correlação entre tipo sanguíneo e COVID-19 [6, 10]. Nela, defendem que grupos controle advindos de bancos de doadores de sangue não necessariamente deixam de refletir as proporções sanguíneas da população geral, visto que, ao compararem um grupo controle de doadores (890) com não-doadores (18.097), não foi obtida diferença significativa entre os tipos sanguíneos. Além disso, eles compararam um grupo de 505 pacientes hospitalizados com COVID-19 severa com os grupos controle, ajustando para as variáveis idade, sexo, tabagismo, hipertensão e mutação de risco para COVID-19 (chamada rs11385942), e observaram que indivíduos do tipo A apresentaram maior risco de infecção severa, enquanto os do tipo sanguíneo O apresentaram menor risco [22]. O fator Rh não foi avaliado em nenhum dos dois estudos. 

Publicado em novembro, um trabalho desenvolvido na província de Ontário (Canadá) concluiu que indivíduos de sangue tipo O e indivíduos Rh negativos possuem, de forma modesta (risco relativo ajustado de 0,88 comparando indivíduos O contra os demais, risco 0,79 para indivíduos Rh negativo e 0,74 para indivíduos O negativo [95% de intervalo de confiança]), possuem menor risco de serem infectados e de desenvolverem COVID-19 severa. Um total de 225.386 pacientes foi avaliado [23]. 

Em dezembro, pesquisadores iraquianos analisaram o tipo sanguíneo de 1014 pacientes com COVID-19 atendidos em hospitais das cidades de Bagdá e Baçorá e compararam com um grupo controle de 901 doadores de sangue das mesmas localidades. Foi observado que indivíduos de tipo sanguíneo A têm maior risco de contrair a doença (35,5% de pessoas A no grupo infectado contra 32,7% no grupo controle). Os autores não consideraram dados de comorbidades e não avaliaram o fator Rh [24].  Boudin e colaboradores, por outro lado, publicaram um trabalho com uma abordagem inovadora para o problema. Eles estudaram a população de um navio porta-aviões francês que experienciou um surto interno de COVID-19 durante os meses de fevereiro, março e abril. Dos 1769 membros da tripulação, 1688 (95%) foram incluídos no estudo, tendo 1279 testado positivo para o SARS-CoV-2 por RT-PCR (apenas 1038 testaram positivo para o teste) e/ou tido sintomas epidemiologicamente compatíveis com a doença. Comparando os tipos sanguíneos dos indivíduos infectados com a proporção de cada tipo sanguíneo obtido na tripulação total (infectados + não-infectados), concluiu-se que nenhum deles está relacionado com maior ou menor risco de infecção pela COVID-19. Os pontos positivos deste estudo foram: população exposta de maneira uniforme ao vírus, inclusão de infectados leves e assintomáticos e possibilidade de ter um grupo controle dentro da própria população de infectados. Ao mesmo tempo, justamente essas características únicas do grupo estudado, como a grande proporção de indivíduos saudáveis (ocasionando um pequeno número de doentes graves) e a exposição intensa e constante ao SARS-CoV-2, podem ter ocasionado a falta de diferenças entre os indivíduos de diferentes grupos sanguíneos [25].

Por fim, em janeiro de 2021, pesquisadores da Arábia Saudita e do Egito publicaram um estudo na revista International Journal of Environmental Research and Public Health sobre o assunto. Tendo como foco a comunidade árabe, os autores criaram dois formulários de preenchimento online divulgados através de Facebook e Whatsapp: um para coletar dados de todos os indivíduos e outro só para aqueles que contraíram a COVID-19. Dentre os dados requisitados nos questionários, estavam o tipo sanguíneo (com fator Rh) e sintomas experienciados durante a infecção, assim como o tempo para recuperação. Os critérios para inclusão no grupo de infectados não se limitaram ao teste de RT-PCR positivo, tendo sido considerados raio-X do tórax, sintomatologia compatível, ferritina sérica e outros, mesmo sem PCR positivo. Esse fator pode ter superestimado a população infectada, causando viés na análise. Comparando os tipos sanguíneos entre os controles (707 indivíduos) e os infectados (726 indivíduos), observou-se um número significativamente menor de pessoas infectadas do tipo sanguíneo O. Os demais tipos, assim como o fator Rh, não tiveram diferença entre os dois grupos. Com relação  à severidade da doença, os indivíduos do grupo O exibiram menor saturação de oxigênio e maior necessidade do uso de respiradores artificiais, ao mesmo tempo que indivíduos tipo A mostraram uma tendência contrária (semelhante aos resultados de um dos estudos de setembro [14]). Estudos que contam com a participação voluntária em formulários online sempre têm vieses de seleção inerentes, visto que não há uma uniformidade de participação e acesso ao questionário. Além disso, o fornecimento de dados clínicos pelos próprios participantes não é a forma mais confiável de prospecção [26]. 

Como demonstrado, os achados envolvendo tipo sanguíneo e COVID-19 são conflitantes, não havendo um consenso entre os estudos disponíveis até o momento. Novos estudos sobre o tema estão sendo gerados dinamicamente, portanto cabe destacar que o objetivo deste texto não é trazer toda a literatura disponível, mas sim fazer um apanhado para criar uma noção atualizada do assunto. De modo geral, foi demonstrado que pessoas do tipo O possuem um risco menor de se infectar com o novo coronavírus. Contudo, esse dado não isenta esses indivíduos das medidas de segurança para evitar o contágio, como o isolamento social e o uso de máscaras. Todos os estudos possuem algum grau de limitação que deve ser levado em consideração, e portanto, mais investigações são necessárias, visto que não há, até então, explicação mais aprofundada sobre algum mecanismo de ação que justifique essa diferença. 

Recentemente, dois grupos de pesquisadores da Bélgica e da França publicaram um trabalho lançando luz sobre o tema. Sabemos que o SARS-CoV-2 é um vírus envelopado e que este envelope se origina da membrana celular de uma célula infectada – o vírus leva “um pedaço” da membrana com ele no momento em que sai da célula para infectar outras. Pois bem, diversas células do corpo humano – incluindo as dos pulmões – têm em suas membranas celulares as proteínas (ou antígenos) determinantes do tipo sanguíneo. Ou seja, indivíduos de tipo A terão proteínas A em suas células, indivíduos B terão proteínas B, indivíduos AB terão ambas e os de tipo O não terão nenhuma delas. Assim, quando um vírus como o SARS-CoV-2 sai da célula, ele leva essas proteínas do hospedeiro consigo na estrutura de seu envelope. Pensando nisso, é possível inferir que anticorpos contra essas proteínas A e B poderiam ajudar a combater o vírus no momento inicial da infecção. Acontece que muitas pessoas possuem anticorpos contra A e B – são os chamados anticorpos naturais:
– Pessoas do tipo A possuem anticorpos naturais anti-B;
– Pessoas do tipo B possuem anticorpos naturais anti-A;

– Pessoas do tipo AB não possuem nenhum desses dois anticorpos;

– E pessoas do tipo O possuem anticorpos anti-A e anti-B!

Ou seja, essa característica poderia justificar a aparente proteção desses indivíduos contra o SARS-CoV-2. Além disso, a justificativa se encaixa no padrão observado, onde o número de infectados O é apenas diminuído, nunca zerado, visto que essa proteção só teria chances de funcionar se as partículas virais iniciais fossem expelidas por hospedeiros de sangue A, B ou AB.

Ainda pensando nessa hipótese, deve-se esperar que pessoas com níveis mais baixos de anticorpos anti-A e anti-B estejam mais suscetíveis à COVID-19, e foi isso que os autores tentaram provar. Quantificando os anticorpos anti-A e anti-B de 290 pacientes com COVID-19 e de 276 indivíduos controle saudáveis, eles observaram que os níveis desses anticorpos entre os infectados é significativamente menor do que entre os controles, apoiando a hipótese levantada. Esse estudo é um dos pioneiros na tentativa de explicar as diferenças de risco observadas entre os diferentes grupos sanguíneos em relação ao SARS-CoV-2, e trás uma interessante teoria acerca do porquê do tipo O ser menos suscetível mas não imune a infecção [27].

Referências:

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