“E a África?”: desvendando mais uma comparação

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Imagem: Roger Ward/Reuters – Todos os direitos reservados

Autor: Isaac Schrarstzhaupt (@schrarstzhaupt)

Revisores: Letícia de Macedo Silva (@instaleticiamacedo); Mateus Falco (@mateuslfalco), Luciana Santana (@lucfsantana1812)

Fevereiro de 2021. Poderíamos estar conversando sobre as vitórias e sobre o controle da pandemia do novo coronavírus, mas infelizmente estamos lutando com novas ondas de aumento de casos e, pior ainda, novas ondas de desinformação.

A desinformação vem sendo utilizada como uma ferramenta de controle da narrativa para substituir a falta de medidas adequadas de controle, inserindo comparações e correlações sem sentido no debate público. Este “modus operandi” acaba por convencer quem acredita nos dados e correlações apresentados sem fazer uma análise crítica, e, por este motivo, entendemos a necessidade de um texto desmistificando uma desinformação que vem sendo muito utilizada: como a África conseguiu ter números “bons” (muitas aspas aqui) em sua epidemia de COVID-19?

A primeira coisa que precisamos buscar são dados concretos para que possamos fazer uma comparação inicial: A África [1] é um continente formado por 54 países e seis territórios insulares que estão distribuídos em 30 milhões de quilômetros quadrados, totalizando uma população aproximada de 1,2 bilhões de habitantes. 

A partir do mencionado já vemos um problema: caso queiramos comparar a África com o Brasil, já corremos o risco, de antemão, de distorções nos dados apenas pelo fato de comparar um continente a um país. Este risco não ocorre apenas pela diferença em tamanho, mas pela grande probabilidade de ocorrência de um fenômeno estatístico chamado de “Paradoxo de Simpson” [2]. O que este paradoxo diz, afinal? Que, quando juntamos um grande grupo de dados, uma tendência que não está presente em nenhum dos subgrupos pode aparecer neste grupo, que é a junção de todos. Neste caso, quando juntamos todos os países e territórios da África, podemos ver tendências que não são encontradas em nenhum dos países individualmente. Só aí já teríamos um problema! Imaginem então comparar esse conjunto de dados com outro país? 

Entendendo isso, vamos agora selecionar alguns países do continente Africano e entender com base em dados o que está havendo no que diz respeito às epidemias de COVID-19 que cada um enfrenta. 

Vamos começar pela África do Sul, país de 58 milhões de habitantes, que está com 1.351.283 casos de COVID-19 e 38.288 óbitos, gerando uma taxa de letalidade por casos de 2,83%. Também podemos ver os seguintes países [3]: 

Tunísia: 11,5 milhões de habitantes, 181.885 casos e 5.844 óbitos (letalidade por caso de 3,21%)

Zimbabué: 14 milhões de habitantes, 28.675 casos e 825 óbitos (letalidade por caso de 2,87%)

Somália: 15 milhões de habitantes, 4.744 casos e 130 óbitos (letalidade por caso de 2,74%)

Congo: 84 milhões de habitantes, 21.140 casos e 640 óbitos (letalidade por caso de 3,02%)

Comparando com o Brasil: 210 milhões de habitantes, 8.573.864 casos e 211.491 óbitos (letalidade por caso de 2,46%) até a data desta publicação.

Analisando estes 5 países africanos, já identificamos que a doença é a mesma, sem diferença significativa na taxa de letalidade por caso. Sendo assim, já eliminamos o argumento de que “se morre menos”. Inclusive, o Brasil tem uma letalidade por caso 0,5% menor do que a média desses países africanos. Ressaltamos que a comparação de números relativos à letalidade é um argumento que perde o significado quando comparamos culturas diferentes. Podemos ainda alertar para as diferenças de letalidade regional no Brasil, expondo o colapso do sistema de saúde que gerou maior número de óbitos em relação a outros estados brasileiros.

Notamos, ao analisar os números, que alguns países africanos têm relativamente poucos casos de COVID-19. Isso também pode ser entendido ao olharmos para a pirâmide etária [4] destes países que é muito diferente da pirâmide de países desenvolvidos ou em desenvolvimento (periféricos).

Em relação à pirâmide etária, alguns países da África possuem uma característica triste, que é ter uma população com baixa expectativa de vida, ou seja, o número de idosos é menor em toda a população. Essa característica é visível nas pirâmides pelo afinamento do topo, diferente da brasileira que apresenta o topo mais cheio. Devido à alta taxa de natalidade, a base e o meio da pirâmide se tornam mais cheias nos países africanos do que em comparação com a pirâmide etária nacional. Podemos ver as pirâmides etárias dos países nas imagens abaixo:

Assim que analisamos essas pirâmides etárias percebemos que, nos países com poucos idosos, também temos poucos casos de COVID-19, novamente remetendo a uma característica já conhecida da doença, que é afetar as faixas etárias com idades mais altas. Como a doença tende a ser mais leve na maioria dos jovens, inclusive com casos assintomáticos, muitos casos passam despercebidos na testagem, levando a situações como a que vemos acima: poucos eventos, mas uma taxa de letalidade por caso muito similar entre os países, demonstrando que a doença continua a mesma.

Perceberam que, até este ponto, nem mencionamos o fato que mais é alardeado nas desinformações que envolvem a África, que é o suposto uso de remédios “eficazes contra a COVID-19”? Deixarei aqui o link para um texto da Rede Análise Covid-19 que deixa extremamente bem explicados os casos de cada um destes medicamentos.

Agora é válido entrarmos na parte histórica: a África é um continente que tem, infelizmente, uma vasta experiência com epidemias, por outro lado,  isto também os ajuda a controlá-las. É importante lembrar que, apesar deste conhecimento, estes países ainda necessitam de suporte material e humano de outros países, além de ajuda humanitária da Organização Mundial da Saúde (OMS). Algumas iniciativas da África do Sul, tais como:

  • 10% do PIB destinado ao combate da COVID-19 [5]
  • Toque de recolher [6];
  • Disponibilidade de apenas produtos essenciais no supermercado [7];
  • Ethiopian Airlines se juntou ao esforço do país transportando ventiladores/respiradores de forma gratuita [8];

Depois de verificar estes pontos, podemos então entender que as comparações feitas entre a África e o Brasil são totalmente infundadas, e só geram (mais) ruído entre as pessoas que não possuem todas as informações envolvidas. Encerramos este texto pedindo, como sempre, cautela ao compartilhar informações sem fundamento! 

[1] https://brasilescola.uol.com.br/geografia/africa-continente.htm

[2] http://bayes.cs.ucla.edu/R264.pdf 

[3] https://ourworldindata.org/covid-deaths?country=TUN~SOM~COD~ZAF 

[4] https://www.populationpyramid.net 

[5] https://www.bbc.com/news/world-africa-54000930

[6]  https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/07/12/africa-do-sul-volta-a-impor-toque-de-recolher-por-avanco-do-coronavirus.ghtml

[7] https://www.businessinsider.co.za/what-can-i-buy-during-lockdown-2020-3 

[8]https://www.google.com/url?sa=t&source=web&rct=j&url=https://veja.abril.com.br/mundo/coronavirus-como-a-etiopia-virou-exemplo-de-ajuda-internacional/amp/&ved=0ahUKEwjT6J_rq6zuAhXiHLkGHXMUDdQQyM8BCDowAg&usg=AOvVaw25PDTGPF0sQQA0kOHF505H&ampcf=1 

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