Imunidade e COVID-19

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Texto: Nathan Strogulski (@NStrogulski)

Revisão: Marcelo Bragatte (@marceloBragatte), Mellanie F. Dutra (@mellziland) 

Não há quem pense em imunidade e não seja remetido imediatamente aos anticorpos. De fato, para muitos imunidade e anticorpos são praticamente sinônimos, provavelmente uma consequência da popularização das vacinas como prevenção massiva de doenças. Entretanto, a imunidade consiste em um universo muito mais amplo do que apenas anticorpos; e de igual forma, anticorpos nem sempre levam a um aumento da resposta imune, impactando diretamente na produção de vacinas e nos processos de tomada de decisão na linha de frente do COVID-19.

A imunidade é um sistema dinâmico entre reações rápidas da imunidade inata ou natural e respostas mais demoradas da imunidade adaptativa ou adquirida, composta pela ação de moléculas presentes nos fluidos corporais. A imunidade inata é composta por barreiras físicas e químicas como nossos epitélios (um exemplo de epitélios está no maior órgão do corpo humano, a pele), células fagocitárias como macrófagos e neutrófilos (que atuam seguindo e capturando invasores, como no popular jogo “pacman”), células especializadas como as dendríticas e NKs (apresentando e matando os microrganismos respectivamente), as citocinas e outras proteínas especializadas em detectar estruturas que são comuns em moléculas que não são do nosso corpo. A imunidade adaptativa é ativada quando somos expostas a agentes infecciosos distintos do comum, que leva uma resposta imune capaz de posteriormente “lembrar” do intruso, melhorando a resposta nos próximos encontros (esse é o princípio básico da vacinação). A imunidade adaptativa é divida entre imunidade humoral e imunidade celular.

A resposta imune “humoral é o principal mecanismo de defesa específica contra microrganismos fora das células (extracelulares), é compostas pelos linfócitos ou células B responsáveis pelos anticorpos. A resposta imune “celular” é o principal mecanismo de defesa específica contra microrganismos no interior das células (intracelulares), sendo composta pelos linfócitos ou células T. A ação conjunta de células com funções especializadas na resposta imune, sejam as células dendríticas, os leucócitos como os monócitos (que são os macrógafos imaturos ou “jovens”), os neutrófilos, os eosinófilos, os basófilos e linfócitos (células B e T) , são a chamada resposta imune. São muitos nomes, mas todos são comuns em exames de sangue e nos trazem informações sobre que etapa da resposta ou quadro de infecção estamos enfrentando. 

Esse sistema é complexo e interativo, tendo mecanismos de “aceleração da imunidade” chamados inflamatórios, e mecanismos de “freio da imunidade” chamados de antinflamatórios, organizados para equilibrar a  resposta imune às infecções. Este balanço é influenciado pelas moléculas sinalizadoras do sistema imune, como as citocinas e os anticorpos, ditando o aumento ou diminuição da resposta imune. Entretanto, esse delicado equilíbrio pode ser sabotado pelos agentes causadores de algumas doenças, causando um agravamento dos sintomas. Dessa forma, para o delineamento de métricas adequadas para o planejamento de vacinas e estratégias terapêuticas COVID-19 é essencial compreender tanto como o SARS-CoV-2 interage com o sistema imune, quanto como se comporta a resposta imune mediada pelos anticorpos anti-SARS-CoV-2..

Apesar da maioria dos pacientes infectados com SARS-CoV-2 apresentarem  sintomas leves a moderados, uma parcela de pacientes apresenta condições graves de infecção, que são marcados pela presença acentuada de células de defesa (monócitos e neutrófilos) nos brônquios, e resposta imune humoral exagerada ou “tempestade de citocinas”. Apesar disso, pouco ainda se sabe sobre os fatores que determinam a severidade, e o quanto a resposta humoral contribui para a infecção. Observa-se que a evolução de anticorpos anti-SARS-CoV-2 aparentemente coincide com a progressão da doença, enquanto dados sugerem que quantidades elevadas de anticorpo são encontradas em pacientes que apresentam infecções severas 2

Além disso, a capacidade dos anticorpos em bloquear diretamente a infecção pelo SARS-CoV-2, chamada de neutralização, parece ter um impacto limitado no processo de recuperação, sendo mais relevante na proteção contra a infecção, levando a casos com espectro menos grave, conforme sugerido em testes de vacinas em modelos animais de COVID-19 3,4.

Já a ação de alguns anticorpos envolve ativação de outros componentes da resposta imune, como o sistema complemento (atuante na repostas imunes inatas e adaptativas), e da resposta imune celular. Esta ação orquestrada do sistema imune em resposta ao SARS-CoV-2 tem sido amplamente estudada, pois já se sabe a partir de estudos que utilizam apenas células cultivadas, que o vírus é capaz de invadir células do sistema imune e comprometer a resposta imunológica 5. Essa colaboração entre resposta imune humoral e celular é crítica, pois os anticorpos podem agir pela neutralização de agentes infecciosos, como o novo coronavírus, ou também agir preparando a resposta imune celular frente a eles.

Nesta linha, a transfusão de plasma de pacientes convalescentes, contendo anticorpos anti-SARS-CoV-2, tem demonstrado impacto positivo para a melhora clínica dos pacientes 6; entretanto ainda não se sabe se esses benefícios são derivados da ação neutralizante dos anticorpos “extra” doados ao paciente, ou pela ação dos anticorpos sobre o sistema imune celular.

Desta forma, um melhor entendimento sobre ambas funções desempenhadas pelos anticorpos durante a resposta ao SARS-CoV-2, e como o vírus interage com o sistema imune é um passo essencial para o desenvolvimento de vacinas e terapias eficazes.

Referências:

1Katzelnick, L. C. et al. Antibody-dependent enhancement of severe dengue disease in humans. Science. 358, 929–932 (2017).

2 Long, Q.-X. et al. Antibody responses to SARS-CoV-2 in patients with COVID-19. Nat. Med.

3 Yu, J. et al. DNA vaccine protection against SARS-CoV-2 in rhesus macaques. Science. DOI: 10.1126/science.abc6284

4 Yasui, F. et al. Phagocytic cells contribute to the antibody-mediated elimination of pulmonary-infected SARS coronavirus. Virology 454–455, 157–168 (2014)

5 Jaume, M. et al. Anti-severe acute respiratory syndrome coronavirus spike antibodies trigger infection of human immune cells via a pH- and cysteine protease-independent FcγR pathway. J. Virol.85, 10582–10597 (2011).

6 Duan, K. et al. Effectiveness of convalescent plasma therapy in severe COVID-19 patients. Proc. Natl Acad. Sci. USA 117, 9490–9496 (2020).

7 ABBAS, A.K.; LICHTMAN, A.H.; PILLAI, S. Imunologia Celular e Molecular. 8ᵃ Edição. Elsevier, 2015 (livro-texto)

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