Máscara, Ciência e Cidadania

Autora: Melissa Markoski (@melmarkoski)

Revisão: Luciana Santana (@lucfsantana1812) e Rute Maria Gonçalves de Andrade (@rutemga2)    

Imagem:  https://br.freepik.com/

A pandemia da COVID-19 trouxe com ela (ou, pelo menos, deveria) uma completa mudança de nosso senso de observação e modo de vida. Isso foi algo que aconteceu praticamente da “noite para o dia”. Nós estávamos lá, levando nossa vida em casa mostrando fotos no celular para o avô, abraçando aquela tia querida, dando aquele toquezinho no braço do colega ao contar as peripécias do filho, analisando os dados do funcionário junto dele no computador, bebericando e brindando bons momentos com os amigos, beijando aquele gatinho na balada, tateando para escolher a melhor fruta no supermercado… E, mais que de repente, tudo isso virou um grande e triste “stand-by”. Mas nada foi tão singular quando passamos a ter este item, como algo indispensável e necessário no dia-a-dia: sim, eu falo dela, a máscara. 

Em março, quando a notícia de que um novo coronavírus, o SARS-CoV-2 espelhava-se mundo a fora, e trazendo consigo o alerta de que era transmissível por via respiratória, iniciaram os planos de tentar contê-lo. Logo, as grandes entidades de saúde, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), vieram a público para tentar auxiliar a população. Medidas utilizadas na pandemia da Gripe Espanhola (1918) e      mais recentemente, nos surtos da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS, 2003) e da gripe H1N1 (2009), vieram novamente à tona: as pessoas devem manter distanciamento social e higienizar bem as mãos. Entretanto, parecia que somente essas atitudes não estavam sendo suficientes. Então, inspirados na proteção que devem ser seguidas pelos profissionais de saúde, no comportamento de empatia da população asiática quando alguém fica doente e que, talvez isso, fosse uma boa ideia para ajudar a interromper a alta transmissão do vírus, algumas instituições e governos passaram então a sugerir o uso da máscara facial para a população, de maneira geral. Isso causou certo “alvoroço” no momento e, até, certa inquietação.

Desta maneira, algumas instituições e governos passaram então a sugerir o uso da máscara facial para a população, de maneira geral. Isso causou certo “alvoroço” no momento e, até, certa preocupação. Preocupada com a falsa sensação de segurança do uso indiscriminado da máscara, a OMS veio a público em março para alertar sobre essa situação e sugerir que a alta procura por máscaras poderia ocasionar a sua falta em alguns países, especialmente para profissionais de saúde que atuam à frente contra a COVID-19. Entretanto, poucos dias depois, a própria OMS veio novamente a público anunciar que as máscaras faciais deveriam ser utilizadas por todos e de maneira adequada. E, para tal, orientou-se também a fabricação de máscaras de tecido. Contudo, o que se sabe, afinal, sobre a eficiência das máscaras na proteção à COVID-19? A resposta correta seria um bom “ainda não sabemos, mas tudo indica que ela auxilia na proteção”. Vamos tentar elucidar alguns pontos que sustentam essa ideia, discutir os tipos de máscaras que estão sendo utilizadas e o que é preciso para garantir sua eficiência de proteção.

Há quem pense que as máscaras utilizadas como barreira de proteção em saúde são bastante recentes, mas a verdade é que elas já acompanham a sociedade há alguns séculos. Certamente, você já deve ter visto estas imagens da Figura 1. Elas representam o “médico da peste” [1], que atendiam as pessoas vítimas da Peste Negra, causada pela bactéria Yersinia pestis e que assolou a Europa no século XIV, e sua característica máscara. Com a aparência semelhante ao bico de uma ave, essa máscara “intimidativa” era preenchida com ervas aromáticas que serviam para a proteção do médico, já que se acreditava que a infecção seria causada pelos odores fétidos que a acompanhavam (teoria miasmática). A partir daí foram muitas as modificações que as máscaras sofreram para se tornarem parte do arsenal de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) e serem utilizadas pelos profissionais de saúde.

Figura 1. O médico da peste e a máscara utilizada como forma de prevenção aos odores da Peste Negra (Imagens: Freepik).

Existem diferentes tipos de máscaras para as mais diversas aplicações. Além disso, elas são classificadas diferencialmente de país para país. Há máscaras para proteção de riscos biológicos, outras para materiais radioativos, os respiradores de proteção a químicos e muitos outros tipos e subtipos. Como o foco aqui é a proteção ao SARS-CoV-2, iremos nos ater aos equipamentos para proteção aos riscos biológicos. Para tal, podemos considerar os dois principais tipos de proteção: aquela destinada aos profissionais de saúde para, na presença de agentes biológicos de alto risco, se protegerem da possibilidade de infecção; e aquela direcionada ao paciente, onde profissionais e demais pessoas utilizam máscaras para deixar o ambiente o mais “estéril” possível . Assim, dois modelos principais se destacam para cada uma dessas situações, sendo, respectivamente, os respiradores N95 e as máscaras cirúrgicas (Figura 2), que foram também recomendados aos profissionais de saúde através de norma técnica da Agência de Vigilância Sanitária (ANVISA) [2]. 

Figura 2. Os modelos de máscaras do tipo N95 (A), cirúrgica (B) e camadas de proteção (C). Imagens: https://www.episaude.org/?p=95 e Freepik; fonte: https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/prevent-getting-sick/cloth-face-cover-guidance.html

É importante ressaltar que para serem eficientes na prevenção, as máscaras profissionais precisam ser confeccionadas com múltiplas camadas de proteção, conforme ilustrado acima, e possuírem um certificado de aprovação (CA – número expedido conforme documento emitido pelo Ministério do Trabalho e Emprego e baseado em sua Norma Regulamentadora Nº 6). As camadas presentes na confecção das máscaras profissionais visam garantir a retenção dos organismos patogênicos, tendo como base os princípios da filtração (impacto inercial, difusão, intercepção, deposição eletrostática e peneiração), e a passagem do ar, necessário à respiração [3]. E, embora se tenha levantado que, por suas camadas e unidades filtrantes, além do uso contínuo, as máscaras pudessem trazer prejuízos à saúde, não há evidência clínica que comprove essa observação. Por outro lado, há evidência de que tanto as N95 quanto as máscaras cirúrgicas são eficazes contra vírus, como o da influenza [4]. Adicionalmente, nesta mesma linha, mas ainda com limitações e baixo número amostral, há dados que corroboram que essas máscaras também seriam capazes de proteger contra o coronavírus [5]. Entretanto, ainda que haja indícios de proteção, não só através de estudos clínicos, como estudos epidemiológicos e testes físicos com as máscaras, salienta-se que são necessários estudos clínicos com grande número amostral, como o que está sendo conduzido pela universidade canadense McMaster (registro clínico NCT04296643), com 576 participantes. Bom, e como ficam as máscaras artesanais, de tecido, nessa situação toda?

Considerando que devem ser feitas trocas periódicas das máscaras quando há a necessidade das pessoas permanecerem fora de suas casas por um tempo prolongado e que a umidade é o principal inimigo da eficiência eletrostática de filtração, como nos proteger quando não dispomos de máscaras cirúrgicas ou N95 para utilizarmos no dia-a-dia? Aqui, ressalta-se que, na baixa disponibilidade, as máscaras N95 devem ser preferencialmente utilizadas pelos profissionais de saúde. Bom, uma alternativa é recorrer à máscara de tecido, como muitas pessoas têm feito. Neste sentido, como garantir proteção com materiais e manufaturas que ainda não passaram pelo crivo metrológico e/ou científico adequado? Para auxiliar, podemos considerar que, embora      as máscaras de tecido não tenham o mesmo  número de camadas protetivas que      as      profissionais, elas podem inferir uma barreira física contra o vírus, como reforça o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos (https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/prevent-getting-sick/cloth-face-cover-guidance.html#evidence-effectiveness). Isso só é possível de se propor quando são consideradas as características físicas das gotículas que contêm as partículas virais e sua dispersão. As gotículas maiores do que 0,5 micrômetros (que é a metade de 1 milímetro), quando expelidas por uma pessoa, por ação da gravidade, tendem a rapidamente cair e se depositar (aqui, ressalto a importância sobre os cuidados de contato com superfícies); já as menores, pelo movimento Browniano (um movimento aleatório das partículas suspensas), tendem a ficar dispersas no ar durante um certo tempo [6]. 

Vamos recordar a informação sobre as propriedades de filtração das máscaras e a barreira aos vírus? Então, considerando-se que o coronavírus possui tamanho de até 0,2 micrômetros, se os materiais que compõem a máscara (trama do tecido, capacidade eletrostática, etc.) permitirem que as partículas se choquem quando a alcançarem, teremos proteção. Do contrário, se for um tecido que permita a passagem dessas partículas (imagine máscaras caseiras feitas com aqueles panos de limpeza multiuso, tecidos como tule, tecidos elásticos, filtro de café que umidifica rapidamente, etc.), não teremos proteção física. Nesta situação, antes que você pergunte sobre materiais que fazem total barreira física (uma máscara que possua uma parte de plástico resistente ou material similar, por exemplo), permita-me informar que o vírus provavelmente não vai passar. E o ar que precisamos para respirar? Não, certamente que não vai passar também. Assim, mesmo que ainda não tenhamos evidências clínicas suficientes sobre a capacidade de proteção das máscaras de pano, há forte indício de que elas seriam capazes de impor barreira física ao vírus, tanto de dentro para fora quanto de fora para dentro, se elaboradas adequadamente, ou seja, com combinações de tecidos que permitam capacidade de filtração com sistema de retenção eletrostático de partículas e a livre passagem do ar [7].

O uso da máscara necessita ser adotado por todos e para todos. Por isso, é muito importante que ela seja utilizada de maneira adequada (Figura 3), não sendo manipulada com as mãos sujas ou disposta erroneamente, deixando nariz, queixo ou as laterais do rosto expostas e/ou possibilitando a entrada de ar. É importante que se entenda que quando a máscara não é utilizada de maneira correta, permitindo essa entrada de ar, que pode conter partículas potencialmente infectantes, sua função, que é de proteção, se anula. Além disso, ao tocar na máscara com as mãos não higienizadas e baixá-la ao queixo (deixando nariz descoberto), mesmo que por pouco tempo, em local onde não se sabe se há presença de partículas do vírus (lembrando que as gotículas pequenas permanecem por até 3 horas nos ambientes fechados), aumenta-se o risco de contaminação [6].

Para finalizar, além da capacidade protetiva que as máscaras oferecem, quando somadas ao distanciamento social e boas práticas de biossegurança, como a higienização das mãos, o seu uso, por todos, também representa uma ação de cidadania, pois não estigmatizamos os doentes. Além disso, quando usamos a máscara, juntos estamos colaborando para impedir a transmissão e, assim, controlar uma doença que tem tirado a vida de tantas pessoas.

Figura 3. Como utilizar a máscara adequadamente. Higienize suas mãos (1), segure a máscara pelas alças (2), coloque-a adequadamente no seu rosto (3) cuidando para que esteja bem ajustada ao nariz (4) e nas laterais do rosto (5). E, lembre-se de higienizar as mãos quando for removê-la. Imagem: Freepik.

Uso de máscara: uma campanha em prol de cidadania e responsabilidade social. Vista essa ideia!

Melissa Markoski

Bióloga, mestre e doutora em Biologia Celular e Molecular pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com estágios pós-doutorais em Imunologia e Câncer na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA); docente da área de Biossegurança na UFCSPA.

Referências

[1] Mussap CJ. The Plague Doctor of Venice. Intern Med J. 2019;49(5):671-676. doi:10.1111/imj.14285

[2] Nota Técnica GVIMS/GGTES/ANVISA nº 04/2020 – Orientações para serviços de saúde: medidas de prevenção e controle que devem ser adotadas durante a assistência aos casos suspeitos ou confirmados de infecção pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2). Acesso em: http://portal.anvisa.gov.br/documents/33852/271858/Nota+T%C3%A9cnica+n+04-2020+GVIMS-GGTES-ANVISA/ab598660-3de4-4f14-8e6f-b9341c196b28

[3] Nazarenko Y. Air filtration and SARS-CoV-2. Epidemiol Health. 2020;42:e2020049. doi:10.4178/epih.e2020049

[4] Long Y, Hu T, Liu L, et al. Effectiveness of N95 respirators versus surgical masks against influenza: A systematic review and meta-analysis. J Evid Based Med. 2020;13(2):93-101. doi:10.1111/jebm.12381

[5] Bartoszko JJ, Farooqi MAM, Alhazzani W, Loeb M. Medical masks vs N95 respirators for preventing COVID-19 in healthcare workers: A systematic review and meta-analysis of randomized trials. Influenza Other Respir Viruses. 2020;14(4):365-373. doi:10.1111/irv.12745

[6] Kutter JS, Spronken MI, Fraaij PL, Fouchier RA, Herfst S. Transmission routes of respiratory viruses among humans. Curr Opin Virol. 2018;28:142-151. doi:10.1016/j.coviro.2018.01.001

[7] Konda A, Prakash A, Moss GA, Schmoldt M, Grant GD, Guha S. Aerosol Filtration Efficiency of Common Fabrics Used in Respiratory Cloth Masks [published correction appears in ACS Nano. 2020 Jun 18;:]. ACS Nano. 2020;14(5):6339-6347. doi:10.1021/acsnano.0c03252

Imagens: Freepik (http://br.freepik.com)

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