Taxa de crescimento da COVID-19: uma boa métrica para acompanhamento da epidemia

Autor: Isaac Schrarstzhaupt (@schrarstzhaupt)

Revisão: Marcelo A. S. Bragatte(@marcelobragatte); Larissa Brussa Reis (@laribrussa)

Imagem: https://s.rfi.fr/media/display/235f7b94-8ac9-11ea-a95a-005056bf87d6/w:1280/p:16×9/bbec16ece34f34c76f4d931117b9def6d5b8db2c.webp

A segunda onda europeia de aumento no número de casos da COVID-19 é uma realidade, assim como os confinamentos, que estão voltando com tudo. Neste fio, quero mostrar para vocês como isso já apareceu nos gráficos a um bom tempo, e como a nossa reatividade nos faz ir até o ponto onde não temos mais retorno, para só aí reagir.

Hoje temos três principais métricas para acompanhamento das epidemias em cada localidade, que são: casos, as internações e os óbitos. A métrica de casos seria, na teoria, a mais válida a se acompanhar, pois em uma linha do tempo ela é a primeira que acontece, sendo seguida por internações e, mais tarde, pelos óbitos.

Temos dois problemas no acompanhamento por casos: a falta de testes (isso é um problema específico do Brasil e de alguns outros países) e a demora/burocracia para que os resultados destes testes sejam efetivamente contabilizados para que o acompanhamento possa ser feito. Além disso, temos o desgaste dos funcionários dos laboratórios centrais (LACENs)  que estão protagonizando uma verdadeira batalha diária para processar tantos testes e resultados, o que também é preponderante no atraso dos números de casos.

Como podemos fazer para compensar este problema? Analisar a taxa de crescimento de novos casos em relação aos casos totais. A epidemia, afinal, depende de pessoas para continuar sua transmissão, e sabemos que quanto mais pessoas infectadas temos, em um “mar” de pessoas suscetíveis à infecção, maior a chance de termos cada vez mais infecções. Esta taxa de crescimento também pode (e deve) ser analisada nos óbitos, para entendermos o atraso entre casos e óbitos e ter uma ideia sobre nosso futuro a curto e médio prazo.

Vamos acompanhar o que aconteceu na Europa para ficar claro como, ao analisar a taxa de crescimento, podemos ver a nova subida bem no começo, antes da “explosão” de novos casos, possibilitando assim intervenções mais pontuais (e mais baratas).

Neste gráfico, fiz a média móvel da taxa de crescimento de casos e óbitos, por semana do ano, na União Européia + Reino Unido (28 países). Fiz um recorte a partir da semana 22 para que possamos ver bem o que aconteceu a partir da semana 27: uma clara reversão de tendência. E esta reversão de tendência estava lá o tempo todo, não apareceu apenas hoje. 


Além disso, conseguimos ver também o atraso desta mesma reversão de tendência ao analisarmos a média da taxa de crescimento de óbitos, como ela apareceu apenas na semana 32, ou seja, 5 semanas.


Onde quero chegar: a semana 27 terminou em 05/07. Entendo que é perfeitamente razoável aguardar por uma confirmação deste indicador, então poderíamos dar, para termos certeza, 30 dias de prazo para ver se essa reversão realmente se confirma em um aumento. Mesmo assim, isso seria em 05/08. Tivemos as medidas de contenção apenas agora, 31/10, com UTIs lotando, óbitos aumentando, e preocupações sérias tanto para a saúde quanto para a economia. Vejam no recorte por dia como isso fica claro:

O que isso nos diz em relação ao nosso futuro, aqui no Brasil? Em primeiro lugar é bom lembrar que a nossa métrica de casos aqui é extremamente afetada pelos problemas que mencionei no início e também devido a nossa política de testagem ser reativa, ou seja, doentes geram testes que geram casos, ao invés de testarmos a comunidade e então entendermos ativamente onde estão os infectados antes mesmo de um surto. Aliás,  recomendo também a leitura deste texto que escrevi para a @analise_covid no qual informamos  sobre uma possível bolha de subnotificações devido aos testes serem reativos.

Mas é importante lembrar que todos estes problemas na métrica dos casos fazem o número ATRASAR e vir MENOR do que a realidade, ou seja, não afeta esta análise, apenas mostra que podemos estar PIORES do que realmente os gráficos mostram. Vamos ver a mesma comparação em relação ao Brasil:

Fiz o recorte da semana 36 em diante para vermos o período atual, já que estamos atrasados em relação à União Europeia (a infecção chegou lá primeiro, arrefeceu, e está voltando antes). Ao analisar o recorte mais a fundo, vemos talvez um pequeno início de reversão de tendência, como aquele que vimos em 05/07 na União Europeia, mas nada que possa ser confirmado ainda. É importante assistir o boletim do Infogripe, uma ferramenta indispensável, apresentado pelo grande @marfcg, onde podemos confirmar , que estamos tendo reversões de tendência em várias capitais: por isso venho chamando a atenção para essa possível reversão.


Analisando o recorte por dia, podemos ver de maneira mais fácil aquele ponto da possível reversão de tendência:

A minha mensagem com tudo isto é a de que devemos usar ao máximo as métricas disponíveis, mesmo que não sejam as mais ideais, para termos maiores chances de prevenir novas explosões de casos e óbitos como estão acontecendo nos países Europeus. Não vamos deixar chegar ao ponto da Europa, onde confinamentos fortes e longos estão sendo feitos por relaxamento das medidas precocemente (deliberadamente ou não). Mesmo que pensassem que era melhor não tomar medidas mais drásticas lá atrás devido ao custo, agora estamos tendo custos maiores, e ainda mais óbitos, que poderiam ter sido evitados.

Para finalizar, é importante vermos os gráficos da União Europeia e os do Brasil desde o início, pois ali fica claro de que não existem outros pontos que poderiam ser confundidos com essa reversão:


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