Estimativas de óbitos por COVID-19 evitáveis na segunda onda brasileira

Autores: Pedro Trindade(@Trindade_PedroA), Marcelo Bragatte(@marcelobragatte), Isaac Schrarstzhaupt(@Isaac Schrarstzhaupt)
Revisão: Humberto Ribeiro(@Humberto_Souza_), Miguel Buelta(@MiguelBuelta), Mateus Figenio(@mateus_figenio), Leonardo Rovatti(@leorovatti)

Resumo

No presente trabalho são apresentadas comparações dos óbitos registrados no Brasil com os observados na Argentina, no Chile e no Equador, objetivando estimar a quantidade de mortes que poderiam ter sido evitadas no Brasil, caso fosse adotado um conjunto de medidas sanitárias semelhantes à desses outros países, que inclui vacinação em massa.

O estudo, que também contemplou aferição com dados da União Europeia, permite concluir que mais de 100 mil óbitos poderiam ter sido impedidos entre os dias 21/02/21 e 20/06/21, inclusive, quando ocorria a segunda onda de mortes que assolou terras brasileiras. No caso da comparação com os três países sul-americanos, estimou-se que esse número cairia para uma média de cerca de 83 mil, o que equivale a quase 700 óbitos evitáveis diariamente no Brasil no período em questão, em média.

Introdução

O advento das vacinas contra a COVID-19, no prazo recorde de menos de um ano a partir da identificação do coronavírus, permitiu o início da vacinação em nível global em 08/12/2020 no Reino Unido, com o imunizante da Pfizer/BioNTech. Apesar deste marco, a vacinação em massa vem ocorrendo mais lentamente do que o desejável, razão pela qual têm sido mantidas as recomendações de outras medidas protetivas, como por exemplo, fechamento de fronteiras, lockdowns(1), distanciamento físico e o uso de máscaras faciais. 

No Brasil a primeira dose de vacina foi aplicada somente em 17/01/2021 com a Coronavac, do laboratório chinês Sinovac em colaboração com o Instituto Butantan(2). 

Principalmente a vacinação em massa com maior celeridade, o foco em ações consistentes de educar a população sobre como se portar, a não disseminação de informações sobre medidas farmacológicas sem evidências e o consenso de efetividade no combate a COVID-19, certamente impediriam perdas de vidas.

Em face das naturais críticas, seria desejável a identificação do impacto do atraso e lentidão da vacinação sobre a mortandade brasileira devida à pandemia. Essa tarefa apresenta complexidade em virtude das incertezas momentâneas relacionadas com a disponibilização em potencial de imunizantes. Por outro lado, existem informações que possibilitam estimar a quantidade de óbitos que poderiam ter sido evitados  se em nosso país fosse adotado um conjunto de medidas sanitárias semelhantes às de outros países da América do Sul. 

Com essa finalidade, no presente trabalho são apresentadas comparações dos óbitos registrados no Brasil com alguns de nossos vizinhos latinos, que iniciaram suas campanhas de vacinação previamente ou na mesma época que o Brasil, assim como também com a União Europeia.

É importante lembrar que outros países, principalmente no oriente, tiveram sucesso no controle da pandemia antes do advento das vacinas, com medidas não farmacológicas não adotadas no Brasil. Por esse motivo e devido a significativas diferenças principalmente quanto a adesão da população às medidas não farmacológicas (distanciamento físico, uso correto de máscaras, lockdown com amplitude e tempo adequados), tais países não puderam ser objeto das comparações aqui contempladas.

Material e Método

Os bancos de dados utilizados nesta análise relativos a óbitos vieram da Johns Hopkins (3),  e para as informações relativas a tamanhos populacionais foram extraídos para União Europeia do Eurostat(4)  e para os demais países do Worldometer (5),  acessados em 20 de Junho de 2021.

A quantidade de óbitos por COVID-19 que poderiam ter sido evitados no Brasil através de um conjunto de medidas sanitárias, incluindo a vacinação em massa, foi estimada por análise gráfica comparativa com outros países sul-americanos, onde:

·     A campanha de vacinação foi iniciada anteriormente ou na mesma época que no Brasil, conforme tabela 1; 

·    A evolução de óbitos diários apresenta tendência de estabilidade, analogamente a ocorrida no Brasil anteriormente à pronunciada onda, iniciada em 21/02/2021.

Também foi realizada comparação com dados da União Européia (UE), que na realidade é um conglomerado de nações, mas é aqui considerada como um único bloco. Isso apesar das suas significativas diferenças socioeconômicas e sanitárias em relação aos demais países em análise. Cogitou-se, ainda, incluir os Estados Unidos e o Reino Unido na análise. Conservadoramente, devido às exemplares campanhas de vacinação desses países, optou-se por desconsiderá-los, contudo. Além disso, países orientais como Coréia do Sul e Vietnã, que tiveram enorme sucesso em suas estratégias não farmacológicas desde o início da pandemia, não se enquadraram no método adotado.

A Tabela 1 relaciona os países selecionados por ordem cronológica de início da aplicação de vacinas, juntamente com as respectivas datas de início da vacinação e populações: 

PaísInício da vacinaçãoPopulação
Chile24/12/202019.116.201
União Europeia27/12/2020447.319.916
Argentina29/12/202045.195.774
Brasil18/01/2021212.559.417
Equador21/01/202117.643.054
Tabela 1 – Dados dos países selecionados

Note-se que os estrangeiros iniciaram a aplicação de imunizantes anteriormente ou na mesma época que o Brasil e que a vacinação no Brasil foi iniciada  no estado de São Paulo somente 41 dias após a primeira vacina ter sido aplicada no mundo.

Os correspondentes gráficos cronológicos de óbitos (covidiogramas), relativos ao período de 01/01/2021 a 20/06/2021, constam na Figura 1.

Figura 1 – Covidiogramas de óbitos diários registrados nos países selecionados 

Para se realizar a comparação entre a curva brasileira e a dos demais países, procedeu-se como descrito a seguir:

  1. Obtenção dos dados de óbitos diários publicados no site da John Hopkins University of Medicine, exceto os do Brasil que foram extraídos do site do Ministério da Saúde;
  2. Cálculo das médias móveis de sete dias desses dados;
  3. Divisão dessas médias móveis pela respectiva população e multiplicação do resultado pela população do Brasil;
  4. Plotagem dos covidiogramas representativos desses resultados;
  5. Translação vertical dos gráficos da Argentina, do Chile e do Equador, de forma a coincidi-los tanto quanto possível com o covidiograma brasileiro no período de 25/01/2021 a 22/02/202. A curva da União Europeia não sofreu translação, pois há nítida recessão entre essas datas.

Na Figura 2 são apresentados os gráficos assim obtidos.

Figura 2 – Covidiogramas registrados no Brasil e ajustados para outros países

Essa figura incluiu ainda o covidiograma do próprio Brasil, correspondente ao período de  diminuição de óbitos observados entre 17/07/20 e 13/11/20, após o covidiograma se manter num patamar em torno de cerca de 1.000 óbitos diários. Nesse caso, a respectiva curva foi objeto também de translação horizontal para possibilitar a comparação almejada. Muito embora inexistissem vacinas à época, a curva em questão (amarela) é a que conduz ao menor número de óbitos, provavelmente em face da menor magnitude da pandemia em 2020.  

Sabe-se que existem dois fatores que também influenciam na transmissão de vírus respiratórios, que são a mobilidade e a sazonalidade. Na COVID-19 a mobilidade se mostrou um fator importante devido à alta transmissibilidade do vírus, e cada país tem a sua mobilidade particular em épocas específicas, principalmente devido a decretos e também a isolamentos voluntários gerados por eventuais colapsos hospitalares. Este fator altera a taxa de transmissão e é um fator confundidor. Em relação à sazonalidade, os dados do Brasil mostram que a curva sazonal de SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) que vinha se mantendo pelos últimos cinco anos (https://info.gripe.fiocruz.br) foi totalmente alterada em 2020 e 2021, com o advento do SARS-CoV-2. A curva sazonal brasileira tem seu início nas semanas epidemiológicas de 7 a 9, seu pico/platô nas semanas epidemiológicas de 17 a 27 e uma queda que só volta a aumentar nas semanas 7 a 9 do ano seguinte. Com a COVID-19 percebe-se que esta curva sazonal deixou de existir assim que ocorreu um aumento da mobilidade, levando a um novo aumento de casos (com posteriores internações e óbitos) em um momento totalmente atípico para doenças respiratórias. É importante levar em conta este fator, que também pode ter ocorrido nos outros países deste estudo.

A mobilidade no Brasil teve uma queda significativa no início da pandemia, chegando a níveis idênticos aos de um lockdown e foi subindo desde então. O Brasil vinha tendo uma queda sustentada nos seus indicadores de óbitos e, conforme a mobilidade foi aumentando, esta queda veio desacelerando, configurando uma reversão da tendência de queda. Esta reversão foi constituída pela desaceleração da queda, durante os meses de setembro e outubro, uma estabilização no mês de outubro e um posterior aumento, que se deu no início de novembro de 2020. 

Este aumento, chamado de “segunda onda” teve seu pico em dezembro/janeiro, uma leve queda em janeiro/fevereiro, também correlacionada com a mobilidade reduzida do período de férias, e por fim um aumento gigantesco em fevereiro/março/abril.

Além disso, é importante destacar o exemplo do Chile, que teve uma aceleração forte da sua vacinação no início de fevereiro de 2021, começou a administrar a segunda dose das vacinas de forma acelerada no início de março de 2021, e também teve um aumento enorme da sua mobilidade no início de fevereiro, coincidindo com o início da vacinação. Quando se tem um aumento repentino de mobilidade em uma comunidade que tem baixa cobertura vacinal, e existe nesta mesma comunidade um vírus altamente transmissível, ocorre o aumento de casos. A cobertura vacinal em 08/04/2021 era de 22% (segunda dose), e essa cobertura foi aplicada majoritariamente na população acima de 70 anos. Houve uma redução nas hospitalizações nessa faixa etária, a qual não foi suficiente para evitar um colapso hospitalar e um cenário epidemiológico ruim, mesmo em um país com acelerada vacinação. Isto significa que, além da aceleração da vacinação, os óbitos são evitáveis também a partir de medidas não farmacológicas para controle da taxa de transmissão até que a cobertura vacinal permita o aumento seguro desta mobilidade. (6)

Finalmente, a partir do dia 21/01/21, data na qual os efeitos da vacinação já estariam se fazendo sentir, considerou-se que os óbitos no Brasil ocorreriam segundo as curvas tracejadas (Figura 2), caso em nosso país tivessem sido tomadas medidas de controle pandêmico compatíveis com a dos demais países. Essa premissa não é aplicável à curva recessiva do Brasil, todavia, em virtude do já explicado.

Resultados

A premissa fundamental para considerar a efetividade da vacinação em determinado local é atingir o percentual mínimo da cobertura vacinal. Enquanto este marco não é estabelecido a dispersão viral não impedida com medidas não farmacológicas traz à tona a possibilidade de multiplicação do vírus e desdobramentos evolutivos como novas variantes. Este trabalho não considera o efeito destas variáveis, mas cabe ressaltar que seja um vírus com maior potencial de transmissibilidade ou não, ainda depende principalmente dos vetores para serem transmitidos. 

De acordo com as premissas adotadas, os óbitos evitáveis no Brasil entre 21/02/21 e 20/06/21 podem ser estimados pelas diferenças entre a integral do covidiograma observado no Brasil e a integral dos demais covidiogramas (ajustados). Os resultados obtidos encontram-se apresentados na Figura 3.

Figura 3 – Óbitos por COVID-19 evitáveis no Brasil no período de 21/02/21 a 20/06/21

Consequentemente, poderiam ter sido evitadas cerca de 112 mil perdas de vidas em média, o que equivale a 44% das 253.357 mortes ocorridas no período de 120 dias em análise.

Considerando-se apenas os cenários relativos aos países vizinhos, que apresentam características sociais e sanitárias mais aderentes às brasileiras atuais, estima-se que nosso país poderia ter evitado em média 83 mil óbitos por COVID-19 nesse mesmo período  de início da segunda onda da pandemia. Isso corresponde a uma redução diária de quase 700 óbitos, em média.

Conclusões e Recomendações

Este trabalho não objetiva trazer números definitivos em um tema multifatorial, mas sim apresentar valores existentes em situações similares, focando em alguns pontos chave para traçar paralelos sobre quantos óbitos podem ter sido evitados com determinadas ações em diferentes localidades. Questões socioculturais, densidades populacionais, escalas geográficas e ações políticas assertivas influenciam significativamente no enfrentamento à pandemia, desta mesma forma verificar países variados permite comparar que mesmo locais tão diferentes tiveram sucessos ou fracassos e o que existe em comum entre estes.

O fracasso brasileiro no controle da pandemia é patente desde seu início, mas recentemente foi agravado pela insuficiente vacinação. A partir de premissas ajustes específicos, foram realizadas comparações dos registros nacionais com os da Argentina, Chile, Equador, União Europeia e do próprio Brasil no cenário de recessão da primeira onda, entre 21/02/21 a 20/06/21, quando ocorria a segunda onda de óbitos brasileira. 

Concluiu-se  que cerca de 112 mil mortes poderiam ter sido evitadas pela COVID-19 no Brasil, o que equivale a 44% das mortes nesse período. Considerando-se apenas os resultados dos nossos vizinhos esse número cairia para uma média de cerca de 83 mil. Isso corresponde a quase 700 óbitos que poderiam ter sido evitados diariamente no Brasil no período em questão, em média.

Esses números podem ser considerados conservadores, pois a análise não incluiu a comparação com países que tiveram sucesso no controle da pandemia a partir da vacinação em massa associada a restrições comportamentais, como por exemplo os EUA e o Reino Unido. Também foram desconsiderados países que nem precisaram de vacinação para evitar mortandades significativas, como a Coréia do Sul e o Vietnã.

Recomenda-se que esse estudo seja objeto de atualizações. Além disso, na medida em que estejam disponíveis informações sobre propostas de vendas de imunizantes para o Ministério da Saúde realizadas em 2020, será oportuna a realização de simulações de mortes que poderiam ter sido evitadas, considerando que tais propostas tivessem sido aceitas prontamente.

Referências

  1. Oraby, T., Tyshenko, M., Maldonado, J., Vatcheva, K., Elsaadany, S., & Alali, W. et al. (2021). Modeling the effect of lockdown timing as a COVID-19 control measure in countries with differing social contacts. Scientific Reports, 11(1). doi: 10.1038/s41598-021-82873-2
  2. “Logo Após Aprovação Da Anvisa, Governo De SP Aplica Em Enfermeira A 1ª Dose De Vacina Contra Covid-19 No Brasil”. G1, 2021, https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2021/01/17/apos-aprovacao-da-anvisa-governo-de-sp-aplica-1a-dose-da-coronavac-antes-do-inicio-do-plano-nacional-de-vacinacao.ghtml. Accessed 18 June 2021.
  3. “Cssegisanddata – Overview”. Github, 2021, https://github.com/CSSEGISandData. Accessed 22 June 2021.
  4. (2021). Retrieved 5 June 2021, from https://ec.europa.eu/eurostat/databrowser/view/tps00001/default/table?lang=en
  5. “Countries In South America By Population (2021) – Worldometer”. Worldometers.Info, 2021, https://www.worldometers.info/population/countries-in-south-america-by-population/. Accessed 20 June 2021.
  6. Schrarztzhaupt, Isaac N. “Vacinação vs Mobilidade no Chile.” 10 04 2021, (https://twitter.com/schrarstzhaupt/status/1380744035086778372?s=20). Accessed 18 06 2021.

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