Tratamento com Anticorpos Monoclonais

Autor Fernando Kokubun. Instagram @fernandokokubun

Revisão: Leticia de Macedo Silva. Instagram @lets.cherry
Luciana Santana, twitter @lucfsantana1812 

A Covid-19, doença causada pelo vírus SARS-CoV-2, tem sido um grande desafio para a saúde e para as pesquisas sobre possíveis tratamentos e vacinas. Até o momento não existem medicamentos específicos para a COVID-19, mas sim a utilização de remédios aprovados para outras doenças, que têm sido aplicados no combate aos sintomas da COVID-19. Sem um tratamento adequado, específico, e uma vacina, o ciclo de crescimento de casos e de diminuição de casos, tende a continuar, dificultando o processo de retorno para uma normalidade ou algo próximo disso. A ausência da certeza de uma imunidade permanente e da não existência de uma terapia realmente efetiva para a COVID-19 são fatores que dificultam este retorno ao habitual. 

Mas as pesquisas têm indicado algumas possibilidades para o combate à COVID-19, como é o caso da utilização de plasma sanguíneo (plasma convalescente) de pessoas que foram curadas da doença. A grande vantagem deste processo é utilizar os anticorpos produzidos pelo sistema imune e fazer a transferência para uma pessoa ainda com sintomas [1]. E por que então não extrair estes anticorpos e produzir em grande quantidade para poder ser utilizado em um maior número de pessoas? A dificuldade é na extração e cópia destes anticorpos. E como os anticorpos são produzidos pelo nosso sistema imune? 

A resposta imune do corpo humano pode ser dividida em sistema imune inato e o sistema imune adaptativo. O primeiro é o que atua imediatamente na presença de corpos estranhos, sendo a primeira linha de defesa com a utilização de anticorpos genéricos, e o segundo que atua com anticorpos específicos para o microorganismo específico detectado como invasor. 

Para situações mais simples, o sistema imune inato é suficiente para conter a situação. O sistema adaptativo é acionado após alguns dias após a detecção do microorganismo invasor, por isso a importância do sistema imune inato para tentar conter o invasor. Não vamos entrar em detalhes sobre os mecanismos específicos de atuação do sistema imune, mas considerar apenas o aspecto que nos interessa para desenvolver o tema de anticorpos monoclonais (uma rápida descrição do sistema imune pode ser visto em [2] ou uma revisão mais completa em [3]). 

Um anticorpo importante é o linfócito B (célula B) que atua no nosso sistema imune adaptativo. No sistema adaptativo, os linfócitos B (assim como o linfócito T) são apresentados para os antígenos específicos da infecção a ser controlada, tornando células específicas para atuar em um tipo de específico antígeno. Estas células são clonadas, sendo utilizadas para combater a infecção, mas algumas ficam como uma reserva para futuras infecções com o mesmo antígeno, não sendo necessárias que sejam novamente treinadas (processo que pode levar alguns dias), de forma que a resposta ao mesmo antígeno em uma segunda infecção será mais rápida e eficiente. 

Copiar estas células B, presentes no soro de pessoas que já foram expostas e não apresentam mais sintomas da COVID-19, é então fundamental para buscar um tratamento mais efetivo e específico para combater o vírus SARS-CoV-2. A técnica de anticorpos monoclonais (o termo monoclonal faz referência ao clone da célula que é produzido a partir de uma célula original) tem justamente este objetivo: produzir cópias das células B. No artigo [4] os autores desenvolveram uma técnica interessante, para acelerar o processo de obtenção das células B. Para isto, utilizaram um conjunto de células B de pacientes que tinham contraído a SARS-CoV em 2004 e 2011. De acordo com [5] 

“The hope with such an approach is that the resemblance between the two viruses might mean that some antibodies that recognize SARS-CoV also recognize and neutralize SARS-CoV-2.” 

Isto é, que alguns anticorpos que reconhecem a SARS-CoV poderiam reconhecer e neutralizar a SARS-CoV-2. Para isto extraíram alguns dos anticorpos presentes na amostra, e do conjunto de 25 anticorpos monoclonais, 4 tiveram resultados promissores. Ressaltamos que a vantagem desta técnica é a utilização de anticorpos monoclonais que já existem, não sendo necessário todo o processo de sintetização do mesmo. 

Este resultado abre uma nova possibilidade de obtenção de um tratamento mais eficiente e estável para a atual pandemia, possivelmente utilizando mais de um anticorpo monoclonal para melhorar a eficiência do tratamento. O procedimento de obtenção descrito em [4] também pode ser utilizado para produzir anticorpos em outros tratamentos de imunoterapia, sejam elas doenças existentes ou futuras doenças, reduzindo assim o intervalo entre a detecção da doença e a obtenção de uma terapia efetiva. 

Referencias 

[1] Monoclonal Antibodies for the Coronavirus (Updated May 5th). D. Lowe, in The Pipeline, Science , 27 de abril de 2020. https://blogs.sciencemag.org/pipeline/archives/2020/04/27/monoclonal-antibodies-for-the-coron avirus 

[2] Antibody Tests for the Coronavirus. D. Lowe, In The Pipeline, Science 2 de abril de 2020. https://blogs.sciencemag.org/pipeline/archives/2020/04/02/antibody-tests-for-the-coronavirus

[3] Sistema Imunitário – Parte II . W.M. Curviel et all; Rev Bras Reumatol 50:552-80; 2010. São diversos textos de revisão, a parte IIc podendo ser acessado em https://www.scielo.br/pdf/rbr/v50n5/v50n5a08.pdf 

[4]Cross-neutralization of SARS-CoV-2 by a human monoclonal SARS-CoV antibody. D. Pinto et all. Nature, 2020. https://doi.org/10.1038/s41586-020-2349-y 

[5] Going back in time for an antibody to fight COVID-19. G. R. Whittaker, S. Daniel. News and Views , Nature , 22 de junho de 2020. https://www.nature.com/articles/d41586-020-01816-5 

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