Os assintomáticos e os X-Men

Autora: Melissa Markoski (@melmarkoski); Revisado por: Rute Maria Gonçalves-de-Andrade  (@rutemga2); Luciana Santana (@lucfsantana1812)

Imagem: https://universoxmen.com.br/2020/06/marvel-lancara-hq-de-x-men-evolution-em-comemoracao-aos-20-anos-do-desenho/

Gosto da ideia de um mundo onde algumas pessoas teriam determinados poderes para ajudar outras pessoas. E, fazendo um paralelo com os X-Men, por exemplo, algumas pessoas descobrem esses poderes na juventude, podendo fazer bom ou mau uso deles. Essas pessoas, na maior parte do tempo, também mantêm a sua identidade de herói meio que em segredo e levam uma vida tranquila entre as demais. É um pouco parecido com os assintomáticos à COVID-19: alguns sabem que são, outros não sabem, e eles estão no nosso meio. Mas vamos supor que alguns desses “poderes”, como o da Vampira, que não pode tocar nas pessoas que ama (não só na época da COVID-19, mas nunca, nunquinha, mesmo) ou do Ciclope, que precisa passar o resto da vida de “óculos de proteção”, fossem transmitidos aos outros, sem que se quisesse. Certamente, isso iria trazer problemas para algumas pessoas. Bom, ocorre o mesmo com a transmissão da COVID-19 pelos assintomáticos aos grupos de risco. Para ajudar na identificação dos indivíduos assintomáticos e o quanto eles poderiam infectar outras pessoas, um grupo de Singapura publicou na última sexta-feira (18/12/2020) um estudo sobre essas questões [1]. Assim, neste texto, convido você a entender o papel dos assintomáticos na propagação da COVID-19 e, principalmente, quero mostrar que eles têm a oportunidade de colaborar contra a transmissão da doença, como verdadeiros super-heróis!

Para início de conversa, gostaria de explicar que a identificação de pessoas infectadas pelo SARS-CoV-2, independentemente de terem sintomas ou não, é importante para as políticas de saúde pública. Além disso, muitos de nós podemos ser assintomáticos e transmitirmos o coronavírus aos nossos familiares, o que não é legal. Este nosso texto aqui, aborda essas questões. Imagine que essas pessoas poderiam ser convidadas a ir para a escola do professor Xavier para um “curso de verão”, como uma espécie de “quarentena”? E pensando bem, temos tantas coisas a fazer em isolamento, como “maratonar” séries, ler livros interessantes, testar receitas novas, descansar, etc., que o isolamento não é algo assim tão ruim, né? Hoje, a realidade de termos pessoas assintomáticas entre nós é preocupante, visto que há uma parte delas que ativamente proporciona a disseminação do vírus nos diversos ambientes e, principalmente, quando não seguem as medidas  preventivas de higienização de mãos, uso de máscara e distanciamento físico. Elas acabam fazendo as pessoas dos grupos de risco se sentirem um pouco ameaçadas, assim como os humanos (sem poderes) em relação aos mutantes. Não é culpa de ninguém, nós sabemos, mas para a maioria das pessoas, o desconhecido assusta! 

Uma das maneiras de facilitar a identificação dos assintomáticos, e até dos pré-sintomáticos (aqueles que não desenvolveram sintomas ainda – em geral até o 3º ou 4º dia após a infecção – mas irão), é fazer um teste. Aaah, você ainda não sabe que teste é preciso fazer? Então, rapidamente te explico: fazemos o chamado teste de PCR (que identifica a presença do vírus), quando estamos a 3 ou 4 dias após o surgimento dos sintomas (uns 7 dias desde a infecção); ou, o teste sorológico, quando queremos ver se, em algum momento, nos infectamos com o vírus e produzimos anticorpos (o que significa que nosso corpo reagiu ao danado!) e, por isso, são necessários pelo menos uns 10 dias a partir da infecção para que a detecção funcione. 

Em Singapura, quando as pessoas são confirmadas que estão com o vírus, identificado  pelo teste de PCR, elas devem seguir um período de quarentena e, após testarem negativo por este mesmo teste, são  liberadas para voltarem ao trabalho. É  como quando o Magneto ou o Wolverine estão de “cabeça quente” e precisam dar um tempo longe da galera. Os testes sorológicos também nos ajudam a entender sobre o tempo de infecção da COVID-19 e podem ser feitos tanto para os sintomáticos quanto para os assintomáticos. Nesse texto aqui, explicamos os testes bem direitinho.

Baseados nessas premissas, de que os testes são importantes para o manejo da COVID-19 (que são as ações de combate, como reunir os esforços do grupo do Xavier e do Magneto para enfrentar um perigo maior), os pesquisadores de Singapura estudaram todos os que ficaram em quarentena de agosto a outubro, os que tiveram contato com pessoas contaminadas e os que fizeram testes sorológicos no período. Assim, 628 pessoas com COVID-19 e 3.790 que estiveram próximas de infectados e passaram por quarentena foram incluídas no estudo. Das pessoas próximas aos infectados (que são os contactantes), 2% (89) desenvolveram a COVID-19 na quarentena. Entre essas 89 pessoas do estudo, 50 estiveram em contato com alguém assintomático e as outras 39, com alguém sintomático. Então, se voltarmos ao número inicial (3.790), os assintomáticos somaram pouco mais de 1%. Você pode achar que 1% é uma frequência muito baixa, mas pensa só: a população do Brasil é de 210 milhões de pessoas, o que significa que mais de 2 milhões de indivíduos poderiam ser assintomáticos! É muita gente! E, lembre-se, os assintomáticos não são detectados por termômetros quando vão ao mercado ou a alguma loja… É como a Mística, que pode se disfarçar em qualquer pessoa e entrar em qualquer lugar. Ainda em relação às 89 pessoas em quarentena, 43 delas estiveram em contato com alguém que testou negativo no teste sorológico (aquele que identifica os anticorpos e não o vírus), enquanto que as demais 46 estiveram com alguém que teve sorologia positiva. A Figura 1 ilustra esses resultados do estudo. 

Figura 1. Esquema representativo de pessoas que contraíram a COVID-19 por entrarem em contato com pessoas com a doença. Esse grupo de pessoas (89 – 2% da amostra total de 3.790 pessoas) desenvolveu a COVID-19 após o contato e durante a quarentena (adaptada de imagem do Freepik).

Além disso, o teste estatístico aplicado também revelou que a incidência da COVID-19 entre as pessoas que estiveram em contato com pelo menos uma pessoa sintomática foi 3,85 vezes maior do que as que estiveram em contato com alguém assintomático, sugerindo que os assintomáticos infectam menos do que os que desenvolvem os sintomas à COVID-19. Finalmente, os pesquisadores também concluíram que a proporção de pessoas contactantes que se infectam não depende do estado sorológico, isso porque muitos ficam próximos e são expostos (por causa das atividades de trabalho ou por morar na mesma casa, por exemplo) a quem está infectando, antes que essa pessoa tenha um teste com sorologia positiva. E agora, permita-me chamar a tua atenção para algo muito sério: algumas pessoas têm ficado propositalmente próximas de pessoas infectadas para contraírem e se “livrarem” mais rapidamente da COVID-19. Isso não deve ser feito nunca, pois não sabemos como cada pessoa irá reagir à doença. O Magneto uma vez tentou forçar o desenvolvimento de um gene mutante no Senador Kelly e o resultado foi fatal. Ele ficou com seu corpo parecendo uma água-viva, acabou rejeitando a mutação e acabou morrendo.

O estudo citado acima trouxe duas observações importantes. Primeiro, que ao rastrear os contatos das pessoas com COVID-19 e as testarmos, poderemos mais facilmente identificar os assintomáticos, que podem transmitir a doença, bem como aplicar medidas de controle, como a quarentena. É por isso que os cientistas e médicos infectologistas alertam tanto para que as pessoas não façam aglomerações (como em festas e bares), pois elas podem se contaminar e transmitir o vírus a outras pessoas (como familiares) sem saber. Porém, se os recursos forem limitados (como ocorre em países como o Brasil), em segundo plano, os autores do estudo sugerem que as testagens sejam direcionadas aos contactantes de pessoas sintomáticas, pois essas são mais fáceis de serem identificadas, e isso poderia ser mais eficaz na redução do risco de transmissão. 

Por outro lado, não podemos esquecer que as pessoas assintomáticas que, em geral, são mais jovens (24 a 31 anos), além de transmitirem a doença, também podem apresentar alterações em análises tomográficas, como mostra uma metanálise [2]. Nesse estudo, realizado na Coréia, mais da metade dos pacientes sem sintomas analisados por tomografia computadorizada apresentaram anormalidades como doença pulmonar intersticial e bronquite. É como a forma da Fênix da Jean Gray, que fica “adormecida” e quando se manifesta, acaba trazendo problemas a ela… Outro estudo [3], realizado nos Estados Unidos, que reuniu dados coletados de mais de 20 mil profissionais de saúde entre abril e maio, mostrou que entre eles, 8,8% foram positivos em testes sorológicos e que 44% destes não relataram qualquer sintoma à COVID-19. Além disso, entre esses 20 mil profissionais, os que usaram máscaras durante exposição aos pacientes com a doença, foram menos propensos a serem soropositivos. Afinal, usar a máscara também é coisa de super-herói, né?

Quando o Fera, o Noturno ou a Mística estão nas suas formas mutantes reais, eles acabam se destacando entre os demais, pois são facilmente identificados. Podemos compará-los aos infectados pela COVID-19 que manifestam sintomas. Neste caso, a manifestação dos sintomas à doença acaba facilitando o manejo, permitindo que essas pessoas sejam distanciadas das não-infectadas para que estas não contraiam a doença. Porém, a Tempestade e o Homem de Gelo, cujos poderes causam um bom “estrago”, passam despercebidos entre as pessoas, assim como os assintomáticos. O professor Xavier sempre os alerta sobre a responsabilidade do uso de seus poderes e os locais onde podem fazer uso deles ou não. Responsabilidade é uma ação que precisa ser posta em prática em relação à COVID-19. Como? Utilizando máscara adequadamente, não fazendo aglomerações (mantendo distanciamento físico), higienizando frequentemente as mãos, alertando as pessoas à volta caso entre em contato com alguém que contraiu a COVID-19, etc. Essas atitudes, em tempos de Pandemia, são realmente heroicas, pois nos permitem salvar as vidas de muitas pessoas que poderiam contrair a doença, desenvolver sintomas graves e morrer.  

Melissa Medeiros Markoski

Bióloga, mestre e doutora em Biologia Celular e Molecular pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com estágios pós-doutorais em Imunologia na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA); docente da UFCSPA na área de Biossegurança e pesquisadora na área de Imunoterapia e Processos Regenerativos por células-tronco (link para o Lattes: http://lattes.cnpq.br/1872859400316329).

Referências

[1] Sayampanathan AA, Heng CS, Pin PH, Pang J, Leong TY, Lee VJ. Infectivity of asymptomatic versus symptomatic COVID-19. The Lancet. 2020 Dec 18. doi: 10.1016/S0140-6736(20)32651-9.

[2] Kronbichler A, Kresse D, Yoon S, Lee KH, Effenberger M, Shin JI. Asymptomatic patients as a source of COVID-19 infections: A systematic review and meta-analysis. Int J Infect Dis. 2020 Sep;98:180-186. doi: 10.1016/j.ijid.2020.06.052. 

[3] Sims MD, Maine GN, Childers KL, Podolsky RH, Voss DR, Berkiw-Scenna N, Oh J, Heinrich KE, Keil H, Kennedy RH, Homayouni R; BLAST COVID-19 Study Group. COVID-19 seropositivity and asymptomatic rates in healthcare workers are associated with job function and masking. Clin Infect Dis. 2020 Nov 5:ciaa1684. doi: 10.1093/cid/ciaa1684.  

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