Será que humanos sonham com ovelhas de máscara?

Autora: Melissa M. Markoski (@melmarkoski)

Revisores: Rute Andrade (@rutemga2), Larissa Brussa Reis (@laribrussa)

Imagem: https://davidandstan.wordpress.com/2017/10/09/recommendation-blade-runner-1982-final-cut/

Palavras-chave: COVID-19, empatia, máscaras, proteção, Blade Runner, Philip Dick.

Se você, como eu, é fã de Blade Runner, O Caçador de Androides, deve ter entendido a referência do título ao livro de Philip Dick, Será que os androides sonham com ovelhas elétricas?, escrito em 1968 e que deu origem ao filme de Ridley Scott em 1982 e à sua continuação, Blade Runner 2049, de Denis Villeneuve. Se você não assistiu aos filmes ou não leu o livro, preciso contar que esse texto é sobre empatia, um dos pontos centrais abordados pela obra. Mas afinal, por que um texto sobre empatia, em tempos da COVID-19, fazendo referência a uma obra de ficção científica? Bom, espero que você descubra ao longo da leitura…

O ano de 2021 chegou e estamos muito mais próximos da convivência com androides (termo usado para designar qualquer ser com aparência humana, ou de outros seres animados, que reproduz seus movimentos por meios mecânicos ou eletrônicos), pois a bioengenharia é uma área que está cada vez mais avançada. A presença de robôs já é uma realidade, visto que eles são comumente utilizados na realização de tarefas perigosas aos seres humanos ou em locais mal iluminados e muito insalubres, por exemplo. Um dos principais fatores que distinguem esses dispositivos autômatos dos humanos é a falta de capacidade de se colocar no lugar do outro. A empatia caracteriza-se pela tomada de perspectiva, ausência de julgamento, reconhecimento da emoção nos outros e capacidade de comunicar esse estado emocional, percebendo-se o marco de referência interna do outro. Para Dick, a empatia é justamente o que torna a vida humana sagrada, uma qualidade que androides não têm.

No universo de Philip Dick, os androides, ou replicantes, algumas vezes viram-se contra seus mestres humanos e passam a matá-los e, por isso, os Blade Runners, que são caçadores de recompensas da polícia, como o personagem Rick Deckard, são responsáveis em rastreá-los e exterminá-los. Para identificar os replicantes, Deckard usa o teste de empatia Voight-Kampff, que mede pequenas dilatações da íris em resposta a perguntas emocionalmente perturbadoras para seres humanos, que por sua experiência de vida, se colocam nas situações apresentadas e reagem fisicamente a elas. Entretanto, ficção à parte, em meio à pandemia da COVID-19, onde vemos pessoas aglomerando em festas clandestinas, não utilizando máscaras em espaços públicos, aplicando vacinas de “vento” e governanças que não provêm o que sua população precisa, eu me pergunto se, ao contrário da ideia da obra, alguns seres humanos não se passariam por replicantes ao fazerem o teste… Será que não estamos anestesiados e sem condições de aflorar nossa empatia quando o número de mais de 3 mil mortes por dia ou a notícia de que já faleceram da doença mais de 315 mil brasileiros não nos provoca reação? Alison Kitson (2020) fez indagações semelhantes comparando as queimadas ocorridas na Austrália ao final de 2019 e a COVID-19 [1]: por que permitimos que isso acontecesse? É por causa da nossa própria complacência e egoísmo que não estamos mais conscientes ou aceitando nossas responsabilidades sociais (e globais mais amplas)? Segundo Martin Luther King, “nossas vidas começam a terminar no dia em que ficamos em silêncio sobre as coisas que importam”.

Rick Deckard, um humano, passa a desenvolver empatia por uma replicante, Rachel. Esse comportamento o leva a protegê-la, a cuidar dela e, ao mesmo tempo, querer ser amado por ela. Eu tomo a liberdade de fazer aqui um paralelo (porque afinal, é preciso ter esperança!) entre os sentimentos empáticos de Deckard por Rachel, com o sentimento dos enfermeiros pelos pacientes e dos divulgadores científicos e da população que segue as orientações a favor de proteção individual e coletiva pelo bem da sociedade. Esses e outros grupos similares estão cansados, muito cansados. Tomemos como exemplo os profissionais de saúde envolvidos diretamente no enfrentamento à doença. Essas pessoas empáticas e resilientes, focadas em salvar vidas, são postas à prova e expostas a riscos todos os dias. Será que recebem aporte psicológico? Os enfermeiros clínicos, especialmente aqueles que trabalham em hospitais que prestam atendimento de linha de frente para os pacientes com COVID-19, não são apenas vulneráveis a um maior risco de infecção, mas também ao desenvolvimento de problemas de saúde mental. Eles experimentam, diariamente, o medo do contágio e o de espalhar o vírus para outros, incluindo seus entes queridos [2].

Um estudo exploratório realizado na Holanda e publicado na revista Plos One [3] investigou o efeito da pandemia de COVID-19 e as regulamentações associadas ao bloqueio e distanciamento social sobre o humor, a empatia e o comportamento pró-social dos adolescentes e jovens holandeses de 10 a 20 anos de idade. Os resultados mostraram que durante três das primeiras semanas de bloqueio pandêmico, os adolescentes apresentaram aumento dos níveis de tomada de perspectiva sociocognicional e exibiram níveis estáveis de contribuições gerais para a sociedade, orientação de valor social, altruísmo e extrema pró-socialidade. Porém, os jovens mostraram diminuição dos níveis de preocupação empática, de oportunidades de ações pró-sociais e tensão. Embora os artigos que examinam níveis de preocupação empática em situações de crise sejam escassos, especialmente no que diz respeito à adolescência, estudos em adultos têm demonstrado que as interações sociais e o apoio são importantes preditores de resiliência e de atuação em situações de crise [4]. De fato, é um grande desafio motivar jovens sobre as questões relacionadas à pandemia de COVID-19 e, principalmente, ao seu enfrentamento. A Rede Análise COVID-19 já publicou textos trazendo referências pop como Star Wars, Universo Marvel e Harry Potter na tentativa de conscientizar o público jovem sobre a importância do uso de máscaras, da transmissão da doença pelos assintomáticos e da contaminação com o vírus em escolas. Porém, a capacidade de empatia é ponto principal tanto para a busca de conhecimento como para pô-lo em prática.

Entre os replicantes, Roy Batty, que nos é apresentado como vilão, ao descobrir que sua geração de androides possui apenas quatro anos de vida, busca por seu criador, no desejo de ampliar sua existência. Quando descobre ser impossível, diante da fraqueza e impotência daquele que o criou, Roy o mata sem a menor empatia, o que não deixa de ser uma forma de libertação dos problemas. Sua natureza confronta e questiona Deckard: mostre-me do que você é feito. Faço aqui um paralelo entre o negacionismo, que está constantemente pondo a ciência à prova. Foi por isso que citei acima que os divulgadores científicos também estão cansados… Vale notar que, em apenas um dos quatro confrontos com replicantes, Deckard está na condição de perseguidor. Nos demais, ele apenas se defende de ataques. Na penúltima cena de Blade Runner, o Caçador de Androides, sob um céu escuro e chuvoso, Roy salva o assustado Deckard de um mergulho mortal do telhado do abandonado Edifício Bradbury. Um replicante foi capaz de sentir compaixão por aquele que era seu inimigo. Nós aprendemos uns com os outros.

One more kiss, dear; one more sigh… Certamente, este momento que vivemos exige uma reflexão cuidadosa e um olhar sobre a compaixão como uma abordagem fundamental para a saúde. Chamar a atenção para a compaixão dessa forma não é sentimental, pois sem ela a saúde para todos é uma realidade impossível [5]. Vale lembrar que uso de máscaras, distanciamento físico e vacinação são atitudes coletivas que preservam não apenas indivíduos, mas uma comunidade, uma população. De certa forma, a COVID-19 nos mostrou que uma pessoa saudável e um mundo saudável são a mesma coisa. E pessoas saudáveis e um mundo saudável são, ambos, fortalecidos quando a empatia e a compaixão alicerçam a saúde pública. Sem isso, “todos esses momentos vão se perder no tempo, como lágrimas na chuva”.

Referências

[1] Kitson A. Rising from the ashes: Affirming the spirit of courage, community resilience, compassion and caring. J Clin Nurs. 2020 Aug;29(15-16):2765-2766. doi: 10.1111/jocn.15182.

[2] Smith GD, Ng F, Ho Cheung Li W. COVID-19: Emerging compassion, courage and resilience in the face of misinformation and adversity. J Clin Nurs. 2020 May;29(9-10):1425-1428. doi: 10.1111/jocn.15231.

[3] van de Groep S, Zanolie K, Green KH, Sweijen SW, Crone EA. A daily diary study on adolescents’ mood, empathy, and prosocial behavior during the COVID-19 pandemic. PLoS One. 2020 Oct 7;15(10):e0240349. doi: 10.1371/journal.pone.0240349.

[4] Brooks S, Amlôt R, Rubin GJ, Greenberg N. Psychological resilience and post-traumatic growth in disaster-exposed organisations: overview of the literature. BMJ Mil Health. 2020 Feb;166(1):52-56. doi: 10.1136/jramc-2017-000876. Epub 2018 Feb 2. PMID: 29420257.

[5] Galea S. Compassion in a time of COVID-19. Lancet. 2020 Jun 20;395(10241):1897-1898. doi: 10.1016/S0140-6736(20)31202-2.

Melissa Medeiros Markoski

Bióloga, mestre e doutora em Biologia Celular e Molecular pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com estágios pós-doutorais em Imunologia na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA); docente da UFCSPA na área de Biossegurança e pesquisadora na área de Imunoterapia e Processos Regenerativos por células-tronco (link para o Lattes: http://lattes.cnpq.br/1872859400316329).

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